Séries

02:00





2001: Odisseia no Espaço e Twilight Zone tiveram um filho: a série da Fox, Legion, uma série retro-futurista sci-fi que me fez esquecer por um momento que é baseada na banda desenhada da Marvel, e pela primeira vez, isso foi bom sinal. 

O primeira episódio apresenta a história de um gajo que ou tem problemas mentais sérios, ou um poder demasiado forte - e eu como já o conheço um bocadinho dos comics posso dizer que é um pouco dos dois. Mas deixou também claro que se vai distanciar desses mesmos comics - óptimo. David Haller é uma personagem que já data dos anos 80, se não anterior (afirmo a dúvida), o que na vida de um personagem da Marvel se traduz para um personagem que já serviu para um pouco de tudo - inclusive criar timelines que o Brian Synger fez questão de arruinar (Apocalypse). Ter a liberdade de reinventar um personagem, ao mesmo tempo que lhe faz jus ao espírito, para mim, é sempre boa ideia. E Legion optou pela estética retro-futurista dos anos 60-70 para contar a história de um dos mutantes mais poderosos e com uma mente demasiado complexa para se traduzir em só mais um franchise.

A série ofereceu-nos no primeiro episódio um psycho-thriller bizarro, sensorial, com uma fotografia potente, uma realização apurada e uma edição de tal maneira refinada que a história, mesmo que se torne básica quando escrita, se torna numa viagem através das imagens, capaz de transmitir uma alucinação, sã ou insana, de uma mente perturbada quer por um poder, quer por uma doença mental (vamos a ver se tenho razão e é um bocadinho dos dois).

Já a aguardava há muito tempo. Finalmene vi. Nada desiludida.

Aguardo o próximo com ansiedade.

Cinema

21:53


Nicholas Sparks, depois de todos os seus livros adaptados ao cinema, depois de gastos todos os plot-twists amorosos, depois de arruinar todos os casais sulistas americanos, matar protagonistas e isolar mulheres com Alzeimar, depois de reutilizar todos os 5 actores brancos de Hollywood (vocês sabem quem são eles) para a mesma narrativa com vinte e três variações diferentes da definição de "amor trágico", renovou-se. Fez um musical. Chama-se La La Land.

O filme passa-se numa realidade que eu reconheço imediatamente que é actual, porque faz lembrar aqueles interiores de barbearias vintage da baixa de Lisboa: é no presente, mas os personagens parecem ter um fetiche inabalável pela década de '50.

Mia trabalha nos estúdios de Hollywood a servir cafés às maiores estrelas das majors, cabisbaixa e soturna por o seu sonho ser ao mesmo tempo inalcançável e tão próximo, abalada pelas suas tentativas falhadas em cumprir o seu sonho. Quer ser actriz, claro. Apesar de ter já tentado uma série de castings, nunca conseguiu, aparentemente, nada. Nem como figurante num anúncio para a diabetes, aparentemente. Sebastian, por seu turno, é um branco que usa sapatos de sapateado dos anos '50 o filme todo, mesmo quando não dá claramente jeito usá-los, e que tem também o seu próprio sonho: salvar o jazz. Ironicamente, o John Legend não acha isto ofensivo, mas dá-lhe a dica de que, se calhar, é melhor tirar a cabecinha do passado e seguir em frente. Sebastian acha que o jazz morreu e decide viver em Los Angeles para o salvar porque, aparentemente, ninguém lhe disse que foi no Lousiana que o jazz nasceu.

Mia e Sebastian conhecem-se então no trânsito, uma troca de olhares e um pirete que tenta ser divertido mas que ditou perfeitamente o nível de humor e previsibilidade para o resto do filme. Os dois voltam a cruzar-se quando Sebastian, pianista num restaurante, é forçado a tocar músicas de Natal pelo mesmo gajo que traumatizou bateristas no Whiplash, mas num laivo de coragem, e porque o seu amor ao jazz é demasiado grande para sucumbir às festividades natalícias, decide borrifar-se para o que o patrão diz e improvisar uma música de sua criação - jazz, caso se estejam a questionar - resultando no seu despedimento. Mia entra no restaurante, atraída pela música, claro, porque o homem mais branco de Los Angeles é o melhor pianista jazz que vão conhecer, e assiste a tudo. Quando por fim se aproxima de Sebastian para o elogiar, o cavalheiro dá-lhe um encontrão com o ombro e manda-se bugiar. Romântico.

Reencontram-se então numa festa onde uma banda está a tocar covers dos anos '80, onde um minuto e meio do Take on Me nos faz esquecer este inferno suburbano-americano apenas por um momento, e Mia, piçada com a situação, pede então à banda que toque o I Ran, supostamente porque dá forte no piano. O pianista é o nosso herói do jazz, caso não tenham percebido e, irritado, Sebastian diz-lhe que é um insulto pedir a um músico a sério que se toque o I Ran. Imaginem como é que os A Flock of Seaguls se sentiram. Foi aqui que fui fazer crepes e me passou uma parte musical que, a revelar pelo resto do filme, foi irrelevante.

Daqui em diante, a melhor forma de entender o filme é seguirmo-nos pela música do Rui Veloso, o Anel de Rubi.

No mix do romance da actriz falhada e do músico branco de jazz, o nosso Vanilla Ice do improviso sugere que ela escreva um guião. Não percebi bem para quê, porque se torna irrelevante o resto do filme visto que ela até no guionismo se torna falhada. Sebastião, vou chamar-lhe assim porque soa à beto, aceita então um emprego como pianista numa banda de John Legend, que para mim é a parte mais estranha de todo este filme. É então que John Legend lhe diz a deixa mais inteligente de todo o filme, e a única coisa que vale a pena, logo a seguir ao próprio John Legend: que ele está fixado no jazz do passado e que convém seguir em frente.

Segue então uma vidinha de tournés do nosso Sebastião enquanto Mia permanece em casa a escrever guiões (acho eu? Fui fazer mais crepes) e a tentar audições falhadas e a actuar em teatros de beco sem nenhum público, e de dona de casa solitária, nos seus vestidinhos de roda e sapatinhos de fivela, que é para não nos esquecermos que este filme tem uma vibe de anos '50, caso o look dos nossos protagonistas não o tenha revelado o suficiente, fica o sexismo subreptício. Dá-se então uma cena em que Mia vai ao concerto da banda de Sebastião. John Legend absolutamente arromba com todo o público, na sua voz excepcional, até que dá a dica de "dá-lhe, teclista" e cai um foco de luz sobre Sebastião. Mia fica meio horrorizada, abalroada pela multidão que se está claramente a cagar para o teclista branco e focadíssimo no John Legend, e afasta-se, a desilusão no seu rosto apenas ofuscada pelas luzes coloridas que, agora, ditam a Mia que ela é ainda mais falhada do que foi até agora - não sou eu que o digo, é o filme.

Os dois separam-se depois de Sebastião faltar à estreia da peça medíocre de Mia onde três pessoas vão assistir e porque Mia não consegue suportar que o Sebastiãozinho ande em tourné enquanto ela não consegue nada da vida, mas no dia a seguir é chamada para um casting que resulta finalmente do seu sucesso. Fast forward cinco anos e Mia é já tão conhecida que toda a gente no exacto café onde ela trabalhava se baba e borra pela sua presença, o que é justificado quando se vê que ela casou com o produtor - tal e qual como no cinema de Hollywood dos anos '50, percebem?

Os dois reencontram-se, agora Sebastião tem um bar de jazz popularusco e desta vez quem é atraído pela música é o marido de Mia, e os dois trocam olhares e viram cabeças da maneira que todos conhecemos porque já vimos pelo menos um filme de Nicholas Sparks. Seguem as suas vidas, Mia sendo a diva que sempre sonhou, Sebastião salvando o jazz, um instrumento de cada vez. E Hollywood branco delira, afirmando que nunca houve nada como este filme. A grande lição é que Mia aprendeu finalmente a gostar de jazz e que Sebastião viu o sketch de Gato Fedorento e aceitou que também é bom "à média e à belga". E pela segunda vez, Damien Chazelle conseguiu não fazer jus à verdadeira origem do jazz, entregando-o às saladas de maionése hollywoodescas como tanto a Academia adora.

O filme tem uma composição, no mínimo, esquisita. Era claro que o realizador tentou misturar a estética dos anos '50 com a actualidade, mas fê-lo de uma forma que transforma a personagem de Ryan Gosling num daqueles pretensiosos que se senta a um canto do Starbucks com uma máquina de escrever, que, de certeza absoluta, frequenta a Fígaro e que acredita que só ele sabe o que é o verdadeiro jazz, porque já ninguém sabe o que é o verdadeiro jazz, nem mesmo o John Legend ou os outros negros profissionais de jazz; e Emma Stone numa sonsinha de vestidos coloridos que se deixa levar pelo estilo de vida, que assume ser deslumbrante, das estrelas de cinema, com as quais se cruza e claramente inveja, sem razões válidas mais que "é o meu sonho". A cinematografia - que nem chega ao trabalho de cor que Mad Max recebeu - não salva o vazio desta história.

E depois há o jazz, aquele que o branquelas do Sebastião quer salvar porque, afirma, está a morrer. O jazz, que tem uma história revolucionária na história afro-americana, um estilo de música que nasceu das caves do Louisiana dos recém-libertados da escravidão e que migrou para Nova Iorque sob a forma dos clubes nocturnos depois da lei de Jim Crow devastar os estados sulistas. Esse jazz. Ryan Gosling quer salvar esse jazz, porque ele está "a morrer".

Vou fazer uma pausa.

No século XIX, um fotógrafo chamado Edward Curtis acreditava que a população nativa americana ia morrer. Tanto assim o cria que criou o projecto "vanishing race", em que se comprometeu a fotografar o máximo possível os nativos americanos nas suas reservas. As suas fotografias representam indígenas americanos em vestimentas "típicas" e em posições frontais, cruas e o mais rígidas possível. Mas Curtis era também conhecido por escolher, em várias ocasiões, que vestimentas deveriam estes indígenas usar e em alteral qualquer indício de modernidade: numa das suas famosas fotografias, eliminou um relógio. A sua tentativa de "salvar" a raça de que estava a desaparecer resultou num aparato caricatural de várias tribos onde, aparentemente, a modernidade não chega porque, para sempre, para Curtis, serão os "nativos", os "indígenas" - e para os nativos-americanos, algo entre uma ofensa e uma piada de mau gosto.

A cena em que Sebastião leva Mia a um bar de jazz para lhe ensinar o que era o "o verdadeiro jazz" (e diz o Rui Veloso: a saliva que eu gastei para te mudar), em que ele toca aí piano e os músicos - afro-americanos do jazz liderados por John Legend - ficam tão impressionados que exigem que Sebastião se junte a eles, fez-me lembrar Edward Curtis. Não porque o homem branco quer tocar jazz, mas porque este homem branco quer salvar um estilo musical com tanta força que o quer fazer ultrapassando, inegenuamente, aqueles pertencentes à comunidade que o representa. Durante todo o filme, Sebastião é tratado como um salvador, ao ponto de a personagem achar que entrar para a respeitável banda de John Legend será "vender-se" - porque ser comercial não faz parte do jazz. Porque este personagem ama tanto um estilo de música que tevem origens na pobreza afro-americana que se recusa a pagar as contas para poder ouvir os seus vinis - estão a ver a ironia?

Voltando a onde estava.

Depois da cena de abertura de uma belíssima dança por um grupo de dançarinos e actores diversificado que estabelecem um certo nível através de um só plano-sequência, não dá para mais nada que não a desilusão. O filme não volta a bater naquele nível inicialmente estabelecido, antes opta por contar uma história visualmente confusa, ainda que com boa cineatografia, sobre um casal onde o conflito central é o de qual deles tem a paixão mais forte. Desenrola-se num enredo previsível com bastantes dos conhecidos clichés e não nos dá muito mais do que números musicais que nem sequer se superam a si próprios. Não são nada demais. As músicas não são nada demais. Não são como I Like to be in America de West Side Story que, transportado para mais de cinquenta anos depois, ainda são actuais, nem sequer tem um Russel Crowe como os Miseráveis para nos deixar meio confusos acerca do que se passa, nem sequer uma Éponine a cantar sobre ir buscar o balde às escadas.

Não é nada de especial. Então como é que conseguiu 14 nomeações - superando o record de nomeações de James Cameron - para Óscar é o que me transcende. Se La La Land fosse só mais um filme de que se fala, era como o outro. Mas este filme incrivelmente mediano conseguiu convencer toda uma classe da Academia de que este, sim, é um dos melhores filmes do ano, enquanto confronta produções poderosas.

Será que é porque o jazz chamou a atenção da elite branca suburbana norte-americana? Hm.

Portanto, o que é o La La Land que não uma reinvenção musical de Crazy Stupid Love?

Fica ainda este sketch que reflecte a minha alma:

Arte

00:16


O Peso das Gerações

Entre 1954 e 1958, Chris Market tornou-se editor da série de livros de viagens Petite Planète, dando-lhe um particular toque político à série que, até então, se caracterizava por atraentes livros de viagens. Chris Marker encarregou-se em particular de fotografar para três edições de três diferentes países: China, União Soviética e Portugal.

Embora diferentes no domínio político, geografia e mesmo cultura, o que une estes três países era o regime então vivido: um regime totalitário. A fotografia acima é da edição de Portugal. Uma fotografia que, como as restantes, aliás, revela o que era então vivido em Portugal: um regime totalitário que compunha uma imagem “para inglês ver”, mas na realidade se pintava de uma extrema pobreza. E como Chris Marker denota nas suas fotografias, particularmente da edição sobre Portugal, a nobreza do nacionalismo é revelada uma máscara do totalitarismo.

Esta fotografia em particular mostra uma mulher velha a meio de uma acção. Não sabemos o que ela está a fazer – se fala, se canta. Mas é uma mulher velha escondida numa semi-escuridão reforçada acima de tudo pelo lenço que lhe cobre a cabeça. É a partir dess aperspectiva que temos de a comparar com a fotografia ao lado: uma criança olhando para a base da estátua do Marquês de Pombal de uma figura masculina que segura com dureza o peso da estátua sobre os seus próprios ombros.

Trata-se de uma representação binomial das gerações. O passado e o presente de então – ou talvez o futuro que o menino vê o homem segurar aos ombros.

Estando eu numa geração ainda mais longínqua que aquelas duas representadas acima, esta fotografia tocou-me profundamente. Passei toda a minha vida a ouvir a minha família falar sobre os dias em que se vivia com medo: de olhos esbugalhados, orelhas trémulas e bocas fechadas. Todo e cada um da minha geração ouviu estas histórias: de como alguém que os nossos pais conheciam foi torturado, de como alguém próximo da família entrou para a clandestinidade depois de ser perseguido. De como a minha tia teve um medo de morte por encontrar um folheto ilegal. De como, por vezes, alguém tinha de dar mão de uma salário inteiro para se manter a si e à sua família em segurança. Como uma só família partilhava uma sardinha. Como não havia dinheiro para sapatos. Como alguém foi morto a tiro pela polícia no meio da rua.

Visitei Berlim em 2008 e aí entrei em contacto mais íntimo com o museu da RFA. A minha mãe, que estava comigo, apontava sempre e informava, num tom que não era tão de dor ou peso quanto, por vezes, a minha geração o espera, mas antes com a força apenas esperada da nostalgia: “Era exactamente assim em Portugal”.

Marianne Hirsch, a partir de uma análise de Maus, a banda desenhada sobre as memórias do pai do autor enquanto judeu aprisionado num campo de concentração, formulou o termo pós-memória. A geração do pós-memória é aquela que experiencia em segunda-mão as memórias e traumas da geração anterior. Aqueles que recordam a experiência compartilhada através das palavras de seus pais, mas de uma forma que é de tal forma vívida que essas passam a ser as nossas experiências. Os traumas são assim transmitidos para uma segunda geração, residindo então nas evidências documentais – fotografias, documentos, textos. Marianne Hirsch chamou à geração do pós-memória os filhos de Auschwitz, mas o conceito é aplicável a outras gerações filhas de traumas de outros eventos mundiais. Acho o termo útil, mas não são os filhos de Auschwitz de Marianne Hirsch a que me referirei daqui em diante.

Lidar com fotografias do passado traz um grande peso para as gerações que herdamos traumas da geração anterior. Sabemos agora o que significam. Não nos limitamos a olhá-las; porque os nossos pais estavam lá, nos mostraram essas imagens e nos contaram as suas histórias, compreendemo-las e sabemos as suas histórias também. Também nós as experienciamos como se tivéssemos estado lá. Respeitamos as memórias dos nossos pais e e sentimo-las como nossas por cada vez que eles mesmo as contam, uma e outra vez.


O menino da fotografia, que olha a estátua, é todas as gerações vindouras após uma grande crise – particularmente humanitária. Quando vi esta fotografia pela primeira vez, entendi-a como a iconografia da geração pós-memória – de todas as gerações pós-memória. Carregamos o peso de um passado que não nos pertence, não porque nos foi imposto – não só – mas porque assim o escolhemos, para lhes honrar a memória, o seu passado, os seus traumas. Ultimamente, acredito que escolhemos olhar para isso da melhor maneira possível, pois afinal, tudo isto é se não uma lição aprendida.

6 de Novembro de 2013

Arte

15:56

Em 1912, Amadeo de Souza Cardoso estava em Paris. Passado um ou dois anos, foi para Espanha. Algures nessa travessia, encontrou os Delaunay – Robert e a sua mulher Sonia. O dois artistas acompanharam-no até Portugal e viveram consigo em Manhufe, e não só, naquele típico consílio artístico de três alminhas na espreguiçadeira de pano debaixo de sol, com a pochade ao lado, mas nada de naturalista. Foi quando o Amadeo começou a incorporar o círculo órfico de Robert – ou mais de Sonia, na verdade. Círculo órfico era o seu nome porque vinha em pandent com o movimento futurista português, com quem Amadeo publicava – Almada, Santa-Rita, Pessoa, às vezes Viana. O círculo órfico era o de orfeu, consoante o orfismo, aquele que estava nas paredes d’A Brasileira. Em 1916, Amadeo deixou de pintar. Uma doença de pele impediu-o de o fazer; em 1918, morreu de gripe espanhola, com 31 anos.

Entranto, já a guerra estalara, e com ela, os Delaunay esquivaram-se de Portugal e regressaram a Paris. Ao mesmo tempo que o faziam, os intelectuais judeus e burgueses exilados escolheram Zurique, particularmente o espacinho que o Hugo Ball alugou e decorou à base de pinturas que pediu de porta em porta e declamações poéticas de amigos. No Cabaret Voltaire, um dia, entraram Picabia, Harp e, mais importante, Tzara.

O dadaísmo durou meses; quando terminou, todos estavam chateados pela mitologia da criação, como acontece com os ismos da arte, geralmente. Tzara partiu para França. Esperava-o, aí, um dadaísmo de tal maneira niilista que ia levar o Breton a puxar os próprios cabelos e a cansar-se de tal forma que cuspiria, assim, na zanga do momento, o surrealismo. O próprio Tzara encontraria aí o Surrealismo, ao qual se dedicaria com bastante mais força. Mas aí, encontrou também os Delaunay. E a certa altura da sua vida, depois que o dadaísmo caiu no poço niilista que o definiu sempre, Tzara escreveu uma obra poética e chamou-a de “Sonia Delaunay”.

Consta que, na ausência de Robert, Sonia foi acusada de espionagem para, creio, os comunistas, a partir de uma carta enviada (ou qualquer coisa) a propósito de um submarino. Esse submarino está numa obra de Amadeo, que a defendeu e se manteve do seu lado até ao fim do caso; e enquanto isso, inseria os seus círculos órficos nos seus quadros, por vezes com pequenos (grandes) insectos em cima destes.

Amadeo pintou os círculos de Sonia; Tzara escreveu a sua obra poética.

Quando eu tinha 18 anos e peguei num livro sobre a performance, li acerca do dadaísmo pela primeira vez. A absoluta descrença em toda a moral que rodeava estes artistas performativos, a falta de compadecência para com um mundo que se matava sem vergonha, e a atitude de se borrifar para as políticas sendo, ao mesmo tempo, bastante político, deixou-me a sentir-me quase em casa. Foi a atitude de Tzara que me cativou, particularmente. Li uma frase sua pela primeira vez que, hoje, é o meu emblema de vivência (reconhecível ao leitor, certamente): “A salada burguesa na sua eterna tigela é sem gosto e eu odeio o senso comum”. A vontade de dominar um cenário caótico para o enfiar mais fundo no caos e apresentá-lo como uma mera desordem reflectiva de um mundo em que vivia – assumindo-se capitão daquele navio que afundava com orgulho – fascinou-me. Tzara, no seu monóculo, numa fotografia em que é empoleirado por Harp e Richter pelas pernas, como três crianças, ou noutra, da autoria de Man Ray, onde uma mulher nua se projecta na parede, embora ele a ignore, ou numa outra onde DADA está escrito orgulhosamente na sua testa – este Tzara tornou-se na figura que mais me inspirou.

No final do meu primeiro ano de faculdade a estudar arte, fui ao Centro de Arte Moderna da Gulbenkian pela primeira vez. No piso de cima, estendiam-se (hoje, não) as obras que definiram o panorama português desde o modernismo à contemporaneidade pós-pop. A primeira parte para onde me dirigi foi a sala do cantinho mais ao fundo, onde os Almadas mais tarde eram dispostos junto de Alvarez e Sarah Affonso.

Vi pela primeira vez um Amadeo ao vivo e tive de me sentar para o observar com atenção durante uns largos minutos. O quadro que contemplava era aquele que ainda hoje considero o meu preferido: não tem título, mas é comummente denominado de C.O.T.Y., devido ao rótulo referente à marca (creio que) de perfumes que aparece num canto. É um tipo de obra que encontramos sempre qualquer coisa nova por cada vez que a olhamos, de tão complexa. Descobri vidro, areia, umas coisas que não percebi. Mais tarde, percebi que se tratavam de gancho de cabelo e uma pulseira. Assim que o vi, achei que se tratava de um elogio à mulher – a forma como a rosa intercepta a zona das virilhas, ou como os espelhos se colocam em triangulação com o peito da mulher, como a janela se abre nas suas costas como se espreitasse um inocente voyeur. Os académicos já sabem que aquilo é sobre a mulher, certo; mas quando olhei para esta obra pela primeira vez, achava que não era apenas sobre a mulher, mas um verdadeiro elogio à mulher. Qualquer coisa acerca da composição rítmica entre as rosas que nascem de um ventre aberto em harmonia perfeita com a paleta de cores, entre o espelho que se abre como um toucador em frente a esta figura universal – sem cabeça – e contrasta com a pulseira caída abaixo – tudo isso me dizia que era um elogio a uma mulher, todas as mulheres – Lucy de Souza Cardoso?; Sonia Delaunay?. Ou talvez fosse de eu ser mulher.

Nunca me tinha interessado pelo Amadeo até esse momento. Li sobre ele e cheguei ao ponto do meu curso em que abordei o modernismo português. Assisti a uma palestra onde foram feitas interpretações incríveis sobre as suas obras. A exposição da Gulbenkian ‘Sob o Signo de Amadeo’ – vi-a algumas dez vezes. Passei a conhecer aquelas obras de cor e passeava por aquela salita pequena com uma verdadeira emoção de proximidade para com este homem que viveu 80 anos nos curtos 31.

O Amadeo viveu mais do que lhe foi permitido. Como se lhe tivessem dado 31 anos apenas porque se sabia, de ante-mão, que iria viver mais do que isso. Lembro-me da professora R. H. S. dizer o seguinte: às vezes, temos de assinalar o mês em que a obra foi pintada para termos uma noção mais nítida da evolução do Amadeo. Ele correu tudo, conheceu tudo: conheceu Picasso, Brâncusi, Modigliani, os Delaunay, Braques. Expôs junto a eles e chegou, até, ao famoso Armory Show de 1913. Expôs desde a Alemanha até Espanha. Caiu no silêncio português assim que a bota de Salazar pisou o terreno, depois do Santa-Rita se achar o melhor pintor futurista de Portugal, enquanto os seus quadros se protegiam do pó debaixo da cama da pobre Lucy de Souza Cardoso.

Nunca, em tempo algum, eu imaginaria que estas duas figuras, Amadeo e Tzara, estariam tão próximas uma da outra, apesar de distantes. Se calhar, foi uma partida cruel do destino um viver muitos mais anos e outro morrer tão novo. Quem o sabe, talvez se viessem a conhecer. Tudo o que nos sobra são os Delaunay entre si e o elogio a Sonia de ambos Tzara e Amadeo. Penso: quase, quase que estes dois homens brilhantes se teriam conhecido; quase que se cruzaram e quem sabe o que daí resultaria!

A verdade é que eram bastante diferentes: o niilismo de Tzara que levou Breton e os restantes surrealistas ao despejo do poeta não era mais do que uma afirmação política anti-guerra; Amadeo era fanático pela guerra, cria-a o futuro do mundo. Tzara aproximava-se do surrealismo; Amadeo aproximava-se do futurismo. A certo ponto, pisaram esse mesmo terreno: Tzara era surrealista, Amadeo explorou o futurismo, mas a velocidade a que vivia, a conjugar com o seu curto tempo de vida, não lhe permitiu que permanecesse aí. O seu interesse excêntrico e eclético levou-o a mudar uma vez mais, e outra, e outra.

Estou aqui, um século depois, a fazer a ponte impossível entre estas duas figuras que são das minhas maiores inspirações. Talvez a ponte seja temporal, como um triângulo que une sem, contudo, unir. Ou eu seja uma ponte teórica, psicológica, metafórica – sei lá. O que sei é que estou a perder o meu tempo num quatro, a ouvir música, a ler livros, a esperar por um dia, um dia qualquer, em que talvez eu entre num café, num bar, num restaurante, numa sala, e encontre a Sonia e o Robert Delaunay da minha geração, para que eles também partam daqui para irem ter com o Tzara da nossa geração enquanto um qualquer Amadeo se safa da morte apenas porque a medicina, graças ao Senhor, evoluiu. Não posso saber onde estão os Delaunay, os Tzara, os Amadeos, Bretons, Harps, Richters, etc, da nossa geração. Devem estar todos como eu: fechados num espaço, à espera que qualquer coisa aconteça, que a pessoa certa esteja ali à espera e que essa pessoa seja uma espécie de musa que lhe vai ligar um botão de inspiração e definir uma qualquer veia artística – ou outra coisa qualquer.

16 de Julho de 2014

abstracções

Abstracção #6

01:30

Quando era criança, passava-se muito por uma criaturinha selvagem impossível de domar. E para os pais, a palavra era precisamente essa: selvagem. Não havia método de os professores a conseguirem chamar à atenção porque ela não conseguia ver as suas acções como erros. Talvez tenha sido mesmo livre, pois toda a criança o é quando nasce, mas apertam-se-lhe em volta as grilhetas da sociedade, que é como quem diz, é moldada num triângulo, o seu lado extra cortado assim rapidamente, para doer menos, e mais importante do que isso, antes que se aperceba, de tal modo que nem dor sente, e enfiada naquele espacinho quadrangular de onde se espera que caiba, tamanho perfeito, lados iguais, ranhuras à medida, tudo medido e contado consoante os parâmetros societais.
Mas de alguma forma, ela lá se escapara, e contrário à esperança de uma criança que cresce e evolui como ser integrante de um colectivo, ainda que lhe queiram chamar de autónomo, pois de autónomo não tem nada, que lhe dão logo adubo para as raízes crescerem e se expandirem pelo solo até se agarrarem aos outros e a transformarem – e a todas as crianças – em adultos dependentes; de alguma forma, ela escapava-se sempre a isto e por cada vez que um lado lhe era cortado, nasciam-lhe outros dois.
Às tantas os lados perderem-se-lhe nas contas, e por alturas da adolescência já era um hexágono. Os pais davam em doidos, como aliás daria qualquer pessoa consciente da necessidade de integração. O pior era na escola. Já nem cabia na carteira que era, também ela, como se esperaria, feita à medida de quadrados. Até as roupas se transformaram nessa lembrança do pesadelo que era ver-se a filha a sair dos conformes. Também as roupas eram talhadas à medida para quadrados e não para outras formas, embora existisse sempre uma secção infantil que se baseava mais em triângulos, mas as crianças mesmo pequenas, essas, ainda em fase de mamar e berrar e cuspir a comida toda depois de a comer, não eram quadrados porque ainda eram moldes de barru cru à espera das milhares de mãos que lhes apertariam os contornos e os empurrariam para aquela aberturazinha quadrada por onde teriam de se espremer.
Mas não esta criança. Com três anos apenas, já com as pernas gordas o suficiente e os pés firmes do andar já muito praticado, ganhou gosto por correr. Não andava, só corria. Os pais não a podiam levar ao parque, tudo o que fazia era correr às voltas e às voltas e às voltas e às voltas dos baloiços, dos escorregas, dos castelos de índios, das cordas de trepar. Ocasionalmente, lá trepava a corda ou subia para os escadotes dos escorregas ou das casas de madeira, mas atirava-se muito depressa e continuava a correr. Nunca se cansava. A energia não se esgotava. Corria e corria e corria e, pelo final do dia, sentava-se à mesa do jantar depois de muitos gritos dos pais, comia calmamente e levantava-se para correr mais. Às nove e meia da noite, dormia. Doze horas certas, sempre doze horas certíssimas.
Com cinco anos, aprendeu a apreciar o risco das alturas, a mesma sensação de adrenalina que lhe dava aquela excitação entre a vida e a morte, como se pôde avaliar na forma como as unhas raspavam o betão e as pernas abanavam para sentir o parapeito debaixo delas sempre que um súbito aborrecimento lhe tomava conta da mente. Descobrira a sensação de deleite ao trepar um banco para esticar os bracinhos ainda curtos e abrir um armário onde ela sabia estarem escondidos frascos e fracos de doces, goluseimas, bolachas. O banco abanou, ela quase caiu, mas o terror súbito veio-lhe quando abre a portinhola do armário e um frasco balança e cai de razia junto ao seu rosto, chegou mesmo a sentir o frio do vidro, espatifando-se no chão. Os pais acorrerem ao estranho incidente, assustados, evidentemente, mas mais pelo som de algo a cair e espatifar-se daquela forma, pensando com naturalidade, o que terá causado aquilo, assombrada é que esta casa não está, e percebendo depois, oh meu deus, foi a miúda, e lá correram a pensar, pronto, magoou-se e não tarda está-me para aqui a chorar. Mas não. Encontraram-na empoleirada no banquinho (que era mais bancão para a criança curta que ainda era) a olhar atentamente para o vidro espatifado. Já esticava um pézinho na direcção do chão para saltar do banco, mas vendo que ela estava descalça, os pais lançaram-se logo à pequena e arrancaram-na dali. O que a pequena sentira, contudo, fora um curto segmento de vida extremamente excitante do momento em que aquele frasco de vidro lhe rasara o rosto e se espatifara no chão. Pensava na possibilidade de o frasco lhe ter acertado em cheio na cabeça. Era grande, muito grande para ela, ainda pequena, de vidro grosso e uma armação de metal que funcionava como fecho da tampa. No chão, espalhavam-se os cacos como estalagmites, como blocos de granito caído, espatifadíssimo, misturado por entre bolachas de chocolate de pepitas, agora estragadas.
A sensação nunca desapareceria, aliás, seria a que mais prazer no seu viver lhe daria, até que a respiração lhe cessasse e lá fosse ela também a misturar-se com a história, a rebolar na terra de larvas e a ser comida pelo chão que pisava. Durante anos da infância que se revelou um verdadeiro terror para os pais, na constante amargura de ver a menina enfiada em traquinices que podiam transformar-se em verdadeiras chatices trágicas se não tivesse cuidado. Trepava todas as árvores e tornou-se ágil o bastante para se escapulir dos pais e fazê-lo até no escuro. Lá conseguia enrolar-se nos troncos e escalá-los com habilidade, e deixava-se ficar lá em cima, pendurada e agarrada aos ramos, a ver as coisas pequeninas abaixo dos seus pés e abanando as pernas quando se sentia aborrecida na esperança de recuperar aquela sensação do momento emq ue o frasco de vidro lhe resvalara o rosto. Caiu uma vez. Partiu o braço. Andou com ele ao peito por tanto tempo que acabou por se esquecer de trepar árvores, além de que os pais passaram a manter olho vigilante na menina, não fosse armar mais alguma até de braço ao peito. Mas coisas para trepar haviam-nas e muitas. Subiu aos móveis, aos sofás, à mesa da sala de jantar, de sapatos e tudo. Saltitava sobre as secretárias da escola nos intervalos do almoço, quando ninguém via. Subia escadas, terraços, varandas e empoleirava-se em todos eles quanto maior fosse a altura. Pequena espreitava através dos muros e paredes, janelas e parapeitos, e observava as coisas pequenas lá em baixo. Se se inclinava, lá vinha aquele formigueiro do perigo a fazê-la sentir-se viva; se estendia os dois braços para a frente, uma vez que ambos os braços se mostraram operacionáveis, tornava a senti-lo, o fervilhar debaixo da pele de excitação.
Outras vezes ainda, agarrava qualquer coisa que gostava muito, como o seu brinquedo preferido, e estendia a mão a segurá-lo. Sentindo-se na iminência dos dedos fraquejarem e largarem o brinquedo lá para baixo, deixava-se encher de um maior desafio, o maior até então: era ela contra ela própria, a testar a sua própria força e persistência, a lutar por aquele maldito brinquedo que não haveria de cair lá para baixo nem que a vaca tossisse, que era logo o seu preferido. Mas era por isso que escolhia sempre o preferido, para sentir o risco ainda mais intensamente, para viver mais de perto o horror da possibilidade de largar aquele brinquedo, para sentir o braço durido mas resistindo, cada vez mais, enquanto ela lá mordia o lábio quando não praguejava para si própria e debitava entredentes, ai de ti, ai de ti que o deixes cair!
Embora esta fosse uma excitação sua que permaneceria por toda a vida, ela foi atenuando com o crescimento para dar lugar a outras coisas, umas típicas e banais de crianças adolescente, particularmente de rapariga, que cresce nessa piscina de hormonas e nada a esbracejar-se em desespero para não se afogar, mas tão recorrente no mundo de triângulos que para aqui não interessará. Interessará o que fez de si as diversas formas que adoptou ao longo do crescimento, e aicma de tudo, como chegou à forma final do seu agora companheiro de vivência, seja lá o que ele na realidade for, proclamou ser um círculo.
Aos doze anos descobriu nova paixão que suscitou de um grande aborrecimento banal esse de jovenzinha a amadurecer que é o desagrado por todas as roupas que encontra nas lojas. Achava-as iguais, os mesmo padrões, os mesmos tecidos, as mesmas formas, as mesmas frases pirosas e carregadas de brilhantes, as mesmas palavras vorazes de significados javardos para miúdas, as mesmas alusões a coisas que ela ainda não estava propriamente formatada para entender, mas que anos mais tarde se provariam certas, sempre a mesma coisa, a mesma paleta de cores, as mesmas conjugações, as mesas as mesmas e as mesmas. E ela cansou-se. Mas isto não lhe perturbou muito, pois entendendo que permanecera triângulo apesar de tudo, a então menina tomou pelas próprias mãos a solução daquele problema e grande chatice. Ora por esta altura, os pais lá se deixaram de preocupar com as taras e manias da agora pré-adolescente e aceitaram que ela era diferente, à sua maneira, sim, talvez fosse essa a palavra, diferente, diferente num status quo colectivo de uniformidade, diga-se homogeneidade, mas que a aceitação do estatuto de extrema diferença, dirão as más-linguas aberração, não prescinda da equação de amor pela filha, que filha é filha, diferente ou não.
Assim, contrariada, ela agarrou nos seus próprios instrumentos de costura e decidiu ser modista. Não decidiu ser modista porque a profissão lhe fosse agradável, um sonho, um objectivo a alcançar na vida, uma coisa que visionava como um futuro brilhante, um sonho, uma ambição, mas porque nada nas malditas lojas de roupa lhe agradava e decidiu resolver ela aquele problema. Com doze primaveras, decidiu criar o seu próprio tipo de roupa, se ir tão longe fosse necessário, e pensou para si mesma: vou fazer roupas para quadrados, hexágonos, octógonos, losângos! Para todas as formas que não triângulos. Não foi apenas uma passagem na sua vida, foi uma coisa que se demonstrou duradoira. Conquanto que não viesse a vestir unicamente roupas fabricadas por si, momentos lá haveria em que seria capaz de encontrar uma peça ou outra que lhe coubesse, talvez lá teria de as adulterar, mas nada demais – e sempre chega a um ponto em que até as mais diversificadas formas aprendem a misturar-se com os restantes – de maneira que tempos deocrriam em que não fabricava nada.
Mas poderia dizer-se que se tratava de uma rapariguinha adolescente com o seu quê de criatividade. De facto, tinha uma cabeça que corria mais depressa do que ela era capaz e via-se extenuada constantemente de a tentar acompanhar. Apaixonava-se intensamente várias vezes por semanas, fosse por pessoas, fosse por objectos, fosse por actividades, e chegava a deixar essas paixões consumirem-lhe o pensamento, o seu, acrescentar-lhe ou cortar-lhe um lado, fosse que influência fosse aquela que acabaria por receber. Na era do digital, ainda usava máquina fotográfica analógica, com essa chatice eterna que é a do rolo, apenas pelo prazer nostálgico de segurar as fotografias impressas em papel brilhante, sujá-las de dedadas e guardá-las dentro de um álbum velho de páginas amareladas que requeriam que as fotografias se colassem. As fotografias, essas, podiam ser de tudo – não era apenas ela e amigos e família e eventos – aliás, raramente o era. Porque essas coisas, e pessoas, as via diariamente, preocupava-se mais em guardar uma recordação apenas de cada momento significativo das suas vidas. Quando um amigo pintava o cabelo, fotografava-o para guardar aquela evidência ao lado da outra, da do passado, e poder pôr em comparação. O mesmo se fazia um piercing, engravidava, engordava ou emagracia, ia de férias e voltava bronzeado, fazia uma tatuagem, casava-se. Todas essas fotografias, cronologias imagéticas dos outros, daqueles que lhe acompanhavam a vida, estavam guardadas num álbum à parte, guardado numa prateleira bem alta, para que lhe custasse aceder, que olhá-las demasiado seria habituar-se à mudança deles, tornar-se-ia familiar, e isso deixava de lhe atribuir um certo factor surpresa, que lhe sabia de forma semelhante àquele momento em que o frasco de vidro lhe rasou o rosto e se espatifou no chão, ainda em pequena.
E claro: fazia o mesmo consigo própria. O hábito veio dos pais, que, como manda a tradição de pai orgulhoso, lá a fotografaram no seu primeiro fato de carnaval, a dar os seus primeiros passos, a comer a primeira papa, a cortar o primeiro bife, a brincar com o primeiro brinquedo, a vestir a primeira bata da escola, a andar no primeiro triciclo, a pedalar a primeira bicicleta, a exibir o primeiro gesso enrolado no braço com as primeiras assinaturas, a calçar o primeiro par de sapatos de saltos altos. Todas estas coisas, e muitíssimas mais, como se deverá calcular, dificílimas de evocar em completo neste momento, encontram-se registadas num álbum de capa grossa e rija, coberto numa imitação de couro castanho, onde se perfilam os anos da sua existência com base nos contrastes. Mas entre esses eventos, nos espaços e intervalos da sua existência além deles, nada existe. De cada evento, existe uma fotografia apenas; nenhuma peça de vestuário se repete, salvo um camisolão verde com peixinhos azuis que lá usara na primeira festa de anos com amigos e também na primeira vez que pedalou a bicicleta, um lapso, um erro, mas que os pais prontamente se certificaram de que não tornaria a acontecer. Por cada evento, havia apenas uma fotografia, regra de ouro e importantíssima, aliás, a mais rigidamente a ser seguida, caso contrário, estragaria desde logo toda a mágica do princípio. Não convinha que se escolhesse por entre milhares de fotografias; desacreditava fortemente nessa ideia de fotografar duzentas e trinta e três vezes um só evento para depois poder escolher uma só e exibir aos amigos com orgulho. Preferia ter uma e apreciá-la intimamente, era aquela, era a única, era muitíssimo mais susceptível de amor seu e apreciação e era melhor que as coisas se mantivessem assim. Muito por onde escolher confunde, e já a mãe lhe dizia quando a encontrava a escolher roupa junto ao armário ou a costurar as suas próprias roupas, tivesse uma só peça e não te queixavas!

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