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Abstracção #6

01:30

Quando era criança, passava-se muito por uma criaturinha selvagem impossível de domar. E para os pais, a palavra era precisamente essa: selvagem. Não havia método de os professores a conseguirem chamar à atenção porque ela não conseguia ver as suas acções como erros. Talvez tenha sido mesmo livre, pois toda a criança o é quando nasce, mas apertam-se-lhe em volta as grilhetas da sociedade, que é como quem diz, é moldada num triângulo, o seu lado extra cortado assim rapidamente, para doer menos, e mais importante do que isso, antes que se aperceba, de tal modo que nem dor sente, e enfiada naquele espacinho quadrangular de onde se espera que caiba, tamanho perfeito, lados iguais, ranhuras à medida, tudo medido e contado consoante os parâmetros societais.
Mas de alguma forma, ela lá se escapara, e contrário à esperança de uma criança que cresce e evolui como ser integrante de um colectivo, ainda que lhe queiram chamar de autónomo, pois de autónomo não tem nada, que lhe dão logo adubo para as raízes crescerem e se expandirem pelo solo até se agarrarem aos outros e a transformarem – e a todas as crianças – em adultos dependentes; de alguma forma, ela escapava-se sempre a isto e por cada vez que um lado lhe era cortado, nasciam-lhe outros dois.
Às tantas os lados perderem-se-lhe nas contas, e por alturas da adolescência já era um hexágono. Os pais davam em doidos, como aliás daria qualquer pessoa consciente da necessidade de integração. O pior era na escola. Já nem cabia na carteira que era, também ela, como se esperaria, feita à medida de quadrados. Até as roupas se transformaram nessa lembrança do pesadelo que era ver-se a filha a sair dos conformes. Também as roupas eram talhadas à medida para quadrados e não para outras formas, embora existisse sempre uma secção infantil que se baseava mais em triângulos, mas as crianças mesmo pequenas, essas, ainda em fase de mamar e berrar e cuspir a comida toda depois de a comer, não eram quadrados porque ainda eram moldes de barru cru à espera das milhares de mãos que lhes apertariam os contornos e os empurrariam para aquela aberturazinha quadrada por onde teriam de se espremer.
Mas não esta criança. Com três anos apenas, já com as pernas gordas o suficiente e os pés firmes do andar já muito praticado, ganhou gosto por correr. Não andava, só corria. Os pais não a podiam levar ao parque, tudo o que fazia era correr às voltas e às voltas e às voltas e às voltas dos baloiços, dos escorregas, dos castelos de índios, das cordas de trepar. Ocasionalmente, lá trepava a corda ou subia para os escadotes dos escorregas ou das casas de madeira, mas atirava-se muito depressa e continuava a correr. Nunca se cansava. A energia não se esgotava. Corria e corria e corria e, pelo final do dia, sentava-se à mesa do jantar depois de muitos gritos dos pais, comia calmamente e levantava-se para correr mais. Às nove e meia da noite, dormia. Doze horas certas, sempre doze horas certíssimas.
Com cinco anos, aprendeu a apreciar o risco das alturas, a mesma sensação de adrenalina que lhe dava aquela excitação entre a vida e a morte, como se pôde avaliar na forma como as unhas raspavam o betão e as pernas abanavam para sentir o parapeito debaixo delas sempre que um súbito aborrecimento lhe tomava conta da mente. Descobrira a sensação de deleite ao trepar um banco para esticar os bracinhos ainda curtos e abrir um armário onde ela sabia estarem escondidos frascos e fracos de doces, goluseimas, bolachas. O banco abanou, ela quase caiu, mas o terror súbito veio-lhe quando abre a portinhola do armário e um frasco balança e cai de razia junto ao seu rosto, chegou mesmo a sentir o frio do vidro, espatifando-se no chão. Os pais acorrerem ao estranho incidente, assustados, evidentemente, mas mais pelo som de algo a cair e espatifar-se daquela forma, pensando com naturalidade, o que terá causado aquilo, assombrada é que esta casa não está, e percebendo depois, oh meu deus, foi a miúda, e lá correram a pensar, pronto, magoou-se e não tarda está-me para aqui a chorar. Mas não. Encontraram-na empoleirada no banquinho (que era mais bancão para a criança curta que ainda era) a olhar atentamente para o vidro espatifado. Já esticava um pézinho na direcção do chão para saltar do banco, mas vendo que ela estava descalça, os pais lançaram-se logo à pequena e arrancaram-na dali. O que a pequena sentira, contudo, fora um curto segmento de vida extremamente excitante do momento em que aquele frasco de vidro lhe rasara o rosto e se espatifara no chão. Pensava na possibilidade de o frasco lhe ter acertado em cheio na cabeça. Era grande, muito grande para ela, ainda pequena, de vidro grosso e uma armação de metal que funcionava como fecho da tampa. No chão, espalhavam-se os cacos como estalagmites, como blocos de granito caído, espatifadíssimo, misturado por entre bolachas de chocolate de pepitas, agora estragadas.
A sensação nunca desapareceria, aliás, seria a que mais prazer no seu viver lhe daria, até que a respiração lhe cessasse e lá fosse ela também a misturar-se com a história, a rebolar na terra de larvas e a ser comida pelo chão que pisava. Durante anos da infância que se revelou um verdadeiro terror para os pais, na constante amargura de ver a menina enfiada em traquinices que podiam transformar-se em verdadeiras chatices trágicas se não tivesse cuidado. Trepava todas as árvores e tornou-se ágil o bastante para se escapulir dos pais e fazê-lo até no escuro. Lá conseguia enrolar-se nos troncos e escalá-los com habilidade, e deixava-se ficar lá em cima, pendurada e agarrada aos ramos, a ver as coisas pequeninas abaixo dos seus pés e abanando as pernas quando se sentia aborrecida na esperança de recuperar aquela sensação do momento emq ue o frasco de vidro lhe resvalara o rosto. Caiu uma vez. Partiu o braço. Andou com ele ao peito por tanto tempo que acabou por se esquecer de trepar árvores, além de que os pais passaram a manter olho vigilante na menina, não fosse armar mais alguma até de braço ao peito. Mas coisas para trepar haviam-nas e muitas. Subiu aos móveis, aos sofás, à mesa da sala de jantar, de sapatos e tudo. Saltitava sobre as secretárias da escola nos intervalos do almoço, quando ninguém via. Subia escadas, terraços, varandas e empoleirava-se em todos eles quanto maior fosse a altura. Pequena espreitava através dos muros e paredes, janelas e parapeitos, e observava as coisas pequenas lá em baixo. Se se inclinava, lá vinha aquele formigueiro do perigo a fazê-la sentir-se viva; se estendia os dois braços para a frente, uma vez que ambos os braços se mostraram operacionáveis, tornava a senti-lo, o fervilhar debaixo da pele de excitação.
Outras vezes ainda, agarrava qualquer coisa que gostava muito, como o seu brinquedo preferido, e estendia a mão a segurá-lo. Sentindo-se na iminência dos dedos fraquejarem e largarem o brinquedo lá para baixo, deixava-se encher de um maior desafio, o maior até então: era ela contra ela própria, a testar a sua própria força e persistência, a lutar por aquele maldito brinquedo que não haveria de cair lá para baixo nem que a vaca tossisse, que era logo o seu preferido. Mas era por isso que escolhia sempre o preferido, para sentir o risco ainda mais intensamente, para viver mais de perto o horror da possibilidade de largar aquele brinquedo, para sentir o braço durido mas resistindo, cada vez mais, enquanto ela lá mordia o lábio quando não praguejava para si própria e debitava entredentes, ai de ti, ai de ti que o deixes cair!
Embora esta fosse uma excitação sua que permaneceria por toda a vida, ela foi atenuando com o crescimento para dar lugar a outras coisas, umas típicas e banais de crianças adolescente, particularmente de rapariga, que cresce nessa piscina de hormonas e nada a esbracejar-se em desespero para não se afogar, mas tão recorrente no mundo de triângulos que para aqui não interessará. Interessará o que fez de si as diversas formas que adoptou ao longo do crescimento, e aicma de tudo, como chegou à forma final do seu agora companheiro de vivência, seja lá o que ele na realidade for, proclamou ser um círculo.
Aos doze anos descobriu nova paixão que suscitou de um grande aborrecimento banal esse de jovenzinha a amadurecer que é o desagrado por todas as roupas que encontra nas lojas. Achava-as iguais, os mesmo padrões, os mesmos tecidos, as mesmas formas, as mesmas frases pirosas e carregadas de brilhantes, as mesmas palavras vorazes de significados javardos para miúdas, as mesmas alusões a coisas que ela ainda não estava propriamente formatada para entender, mas que anos mais tarde se provariam certas, sempre a mesma coisa, a mesma paleta de cores, as mesmas conjugações, as mesas as mesmas e as mesmas. E ela cansou-se. Mas isto não lhe perturbou muito, pois entendendo que permanecera triângulo apesar de tudo, a então menina tomou pelas próprias mãos a solução daquele problema e grande chatice. Ora por esta altura, os pais lá se deixaram de preocupar com as taras e manias da agora pré-adolescente e aceitaram que ela era diferente, à sua maneira, sim, talvez fosse essa a palavra, diferente, diferente num status quo colectivo de uniformidade, diga-se homogeneidade, mas que a aceitação do estatuto de extrema diferença, dirão as más-linguas aberração, não prescinda da equação de amor pela filha, que filha é filha, diferente ou não.
Assim, contrariada, ela agarrou nos seus próprios instrumentos de costura e decidiu ser modista. Não decidiu ser modista porque a profissão lhe fosse agradável, um sonho, um objectivo a alcançar na vida, uma coisa que visionava como um futuro brilhante, um sonho, uma ambição, mas porque nada nas malditas lojas de roupa lhe agradava e decidiu resolver ela aquele problema. Com doze primaveras, decidiu criar o seu próprio tipo de roupa, se ir tão longe fosse necessário, e pensou para si mesma: vou fazer roupas para quadrados, hexágonos, octógonos, losângos! Para todas as formas que não triângulos. Não foi apenas uma passagem na sua vida, foi uma coisa que se demonstrou duradoira. Conquanto que não viesse a vestir unicamente roupas fabricadas por si, momentos lá haveria em que seria capaz de encontrar uma peça ou outra que lhe coubesse, talvez lá teria de as adulterar, mas nada demais – e sempre chega a um ponto em que até as mais diversificadas formas aprendem a misturar-se com os restantes – de maneira que tempos deocrriam em que não fabricava nada.
Mas poderia dizer-se que se tratava de uma rapariguinha adolescente com o seu quê de criatividade. De facto, tinha uma cabeça que corria mais depressa do que ela era capaz e via-se extenuada constantemente de a tentar acompanhar. Apaixonava-se intensamente várias vezes por semanas, fosse por pessoas, fosse por objectos, fosse por actividades, e chegava a deixar essas paixões consumirem-lhe o pensamento, o seu, acrescentar-lhe ou cortar-lhe um lado, fosse que influência fosse aquela que acabaria por receber. Na era do digital, ainda usava máquina fotográfica analógica, com essa chatice eterna que é a do rolo, apenas pelo prazer nostálgico de segurar as fotografias impressas em papel brilhante, sujá-las de dedadas e guardá-las dentro de um álbum velho de páginas amareladas que requeriam que as fotografias se colassem. As fotografias, essas, podiam ser de tudo – não era apenas ela e amigos e família e eventos – aliás, raramente o era. Porque essas coisas, e pessoas, as via diariamente, preocupava-se mais em guardar uma recordação apenas de cada momento significativo das suas vidas. Quando um amigo pintava o cabelo, fotografava-o para guardar aquela evidência ao lado da outra, da do passado, e poder pôr em comparação. O mesmo se fazia um piercing, engravidava, engordava ou emagracia, ia de férias e voltava bronzeado, fazia uma tatuagem, casava-se. Todas essas fotografias, cronologias imagéticas dos outros, daqueles que lhe acompanhavam a vida, estavam guardadas num álbum à parte, guardado numa prateleira bem alta, para que lhe custasse aceder, que olhá-las demasiado seria habituar-se à mudança deles, tornar-se-ia familiar, e isso deixava de lhe atribuir um certo factor surpresa, que lhe sabia de forma semelhante àquele momento em que o frasco de vidro lhe rasou o rosto e se espatifou no chão, ainda em pequena.
E claro: fazia o mesmo consigo própria. O hábito veio dos pais, que, como manda a tradição de pai orgulhoso, lá a fotografaram no seu primeiro fato de carnaval, a dar os seus primeiros passos, a comer a primeira papa, a cortar o primeiro bife, a brincar com o primeiro brinquedo, a vestir a primeira bata da escola, a andar no primeiro triciclo, a pedalar a primeira bicicleta, a exibir o primeiro gesso enrolado no braço com as primeiras assinaturas, a calçar o primeiro par de sapatos de saltos altos. Todas estas coisas, e muitíssimas mais, como se deverá calcular, dificílimas de evocar em completo neste momento, encontram-se registadas num álbum de capa grossa e rija, coberto numa imitação de couro castanho, onde se perfilam os anos da sua existência com base nos contrastes. Mas entre esses eventos, nos espaços e intervalos da sua existência além deles, nada existe. De cada evento, existe uma fotografia apenas; nenhuma peça de vestuário se repete, salvo um camisolão verde com peixinhos azuis que lá usara na primeira festa de anos com amigos e também na primeira vez que pedalou a bicicleta, um lapso, um erro, mas que os pais prontamente se certificaram de que não tornaria a acontecer. Por cada evento, havia apenas uma fotografia, regra de ouro e importantíssima, aliás, a mais rigidamente a ser seguida, caso contrário, estragaria desde logo toda a mágica do princípio. Não convinha que se escolhesse por entre milhares de fotografias; desacreditava fortemente nessa ideia de fotografar duzentas e trinta e três vezes um só evento para depois poder escolher uma só e exibir aos amigos com orgulho. Preferia ter uma e apreciá-la intimamente, era aquela, era a única, era muitíssimo mais susceptível de amor seu e apreciação e era melhor que as coisas se mantivessem assim. Muito por onde escolher confunde, e já a mãe lhe dizia quando a encontrava a escolher roupa junto ao armário ou a costurar as suas próprias roupas, tivesse uma só peça e não te queixavas!

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Abstracção #5

01:28

Acordou no mesmo lugar, ainda sem as roupas mas sozinha. Se foi um sonho, nunca o saberemos. Se foi uma recordação, também nunca o saberemos. Poderia ter-se levantado a meio do sono para se dirigir até àquelas águas furtadas e deixar transpirar a luxúria para o corpo de outro. Poderia tê-lo conhecido antes, muito antes, por muitos anos, ou poderiam nunca se ter visto na vida e toda aquela história de amores e fantasias não era mais do que parte do delírio. Nada disso importa, porque o presente e o actual é o que conta. Porque esta é uma mulher sem passado nem futuro, apenas presente, que se quer libertar das suas grilhetas, sejam elas as roupas, seja ela a carne.
Estava ali sozinha. Da casa, emanava um aroma a qualquer coisa frita e um fresco vento que provinha da rua. Vestiu-se descontraidamente, como se sempre se tivesse encontrado nua em toda a sua vida mas tivesse subitamente frio. E tinha. Esquecera-se de que se encontrava num local húmido. Esquecera-se de tanta cosia que, por vezes, o presente ia de arrasto. Tudo isto lhe parecia natural; não queria atrever-se a decifrar as complexidades da mente, fossem reflexos de defesa, fossem induções de negação, fossem flexões de existência. Tudo isso era mais grilhetas, isso de se viver preso a interpretações. Mais valia que se vivesse no desconhecido. Como ele lho dissera, ela era inédita – e que tudo fosse inédito. A espera conduz apenas ao desespero e à ânsia. Por vezes, à desilusão. Poder-se-á que está imune. Nada a poderá desiludir.

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Abstracção #4

01:26

Do outro lado da estrada, estava um homem que conhecia e que se dirigia até ela. Sorria em disposição plena da sua recpção, mas como sempre, existia-lhe no olhar umamelancolia adjacente, breve e ríspida, um bilho rápido de que relampeja no desejo, talvez, de ser encontrado. Ela vira-lho sempre, mas só mais tarde concluiria de que se tratava sem, contudo, saber em conclusão plena.
Aquele já era outro lugar – ou fora, ou ainda era, ou talvez nunca tivesse sido o espectro da imaginação transformava-a numa panóplia de delírios agradáveis. Sim, aquele pelo menos era agradável. Estava ali, de pé, num terreno arenoso onde algumas construções se erguiam atrás de si. Não se atrevia a voltar as costas para as olhar, se não estivessem ali, isso significava que afinal imaginava ou o lugar era, afinal, outro, e não se podia permitir a fazer essa desfeita. Viveria na ilusão se tivesse de ser
Cheira a terra molhada mesmo que não houvesse ali terra. E à borracha dos pneus que giravam sobre o pavimento húmido. E a comdia grelhada e condimentada que provinha de um restaurante ali perto. Ele aproximou-se, ainda a sorrir nas mesmas condições e preceitos que anteriormente lhe denotara, parou e cumprimentou-a com toda acordialidade que distância que não tinham se impunha quando o afastamento recente ditava a necessidade de ser relembrada para que ele permanecesse ali, como uma barreira entre ambos.
Não tinham nada para falar, mas falavam de tudo, que era eles próprios. Caminhando pelas ruas, disfarçaram o vazio que ambos eram ao falar apenas de si, ao cuspir apenas aquilo que tinham dentro de si próprios porque nada mais existia em torno de ambos. Caminharam por entre as palavras que se misturava com as dos outros, ainda que pouca gente houvesse na rua. Os casais vazios, comprometidos ou não, vivem assim, da ilusão projectada de que tudo é delicioso quando nada existe nas suas palavras que não provenha de si mesmos. Ambos cuspiam o ego numa batalha de rendição, mas ninguém se rendia. Ninguém questionava ninguém. Nenhum deles colocava qualquer pergunta que interessasse a respeito do outro. Esperava que terminassa para induzir uma frase começada por pois eu e prosseguir com a espadada de egos infatuados.
Ainda assim, riam. Porque a mentira é melhor que a verdade, e a verdade, essa, nenhum deles a via porque estavam presos na ilusão. Caminhando e falando, também riam, para acompanhar os passos e adocicar a mentira para que se apresentasse ainda mais como verdade que não era. Uma droga que agravava o delírio. Sabia-lhes bem e havia ressaca no organismo quando ela terminava.
Que espécie de distância existe, pensava. Que falta esta de explicação! Alguém lhe dissera: amar é quando não consegues explicar os sentimentos. Não as havia, de facto, as não os havendo, também não existia qualquer espécie de conversor oficial desse sentimentalismo para o que oficialmente sentia em si por fim a compreendê-lo. Nada. Confusão, vazio, desejo, delírio. Mas aquele muro não estava ali para separar. Vivia separados, viviam distantes, ao cuspirem apenas histórias acerca de si próprios, apenas a confrontarem-se com os próprios egos, mas em vez de permitirem que aquele muro os impedisse de se verem, empoleiravam-se no  parapeito e espreitavam-se. Talvez lhes escapasse um beijo ocasionalmente; em breve, seria isso mesmo.
As ruas desertificaram rapidamente. Não era para mais. Numa ilusão, os extras desaparecem; o delírio passa a borracha em tudo aquilo que está a mais, se for preciso ainda acrescenta um adorno ou dois para agradar mais à mente. A mente a viver na mentira, mergulha num banho de ácido delírio. Quando terminar, o corpo ressacará; mas até lá, tem de existir o beijo e a carne para então vir o confrontar da mentira, o silêncio entre ambos que dirá: não somos nada, não temos nada, vou-me esconder neste muro e tu farás o mesmo, nunca mais nos veremos.
Uma porta abriu-se subitamente e já não havia nada de desagradável, apenas a perpetuação do delírio. O espaço era pequeno e abafado, como convinha. Um sofá de tecido meio rasgado, comprido, largo o suficiente, de cor verde escura. O chão de madeira rangia, aquilo era umas águas-furtadas, ali estava o tecto coberto de vigas de madeira a descer em duas empenas sobre as suas cabeças numa claustrofobia que teria de ser pagada com a carne e o mergulhar da mente no delírio. As roupas caíram no chão em mergulho esperado, entravam também no devaneio e caíam num sargaço constante e instável. Agora, estavam perdidos. Por então, o muro desaparecera. Alguém o galgara. Quando chegassem ao fim, lá concluiriam qual delesteria sido. Por agora, era apenas o mruo que desaparecia de debaixo dos corpos empinados para se verem.
Os corpos que agora estavam nus acariciavam-se e ondulavam sobre aquele sofá roto. Um sofá roto é sempre uma coisa bela num espaço de madeira bafiento onde se ouver térmitas a remoer a madeira. Com corpos nus, a beleza passa a existir, porque o nu embeleza o interior bolorento, até depressivo, escuro, sorumbático, como um rosto em tristeza permanente, de boca recurvada à buldogue. Os corpos nus são a luz que aquele lugar tem enquanto lá fora cai a noite. Só um candeeiro está aceso, próximo de ambos. Através da pequena janela redonda – que coisa estranha – vêem o mar de luzes da cidade, cor-de-laranja, amarelas, vermelhas a piscar, intermitentemente azuis e amarelas. Não havia estrelas no céu, apenas um risoc miserável de lua que era da cor daqueles corpos. Moviam-se em ondulação consagrada ao ritmo cambaleante daquele ofgear uníssono. De amor, não tinha nada, porque talvez o conseguissem descrever. O que tinha era desespero. Agora, achavam que tinham sido ambos a saltar o muro e cada um acreditava viver do outro lado; delirantes, delirantes.
A droga sempre passa,d eixa o corpo sacudido em ressaca. Ainda há tempo para se prepararem antes dela chegar. Ao pôr um termo à ondulação da pele e o unificar sangrento da carne, param para respirar e sentirem agora o sabor do suor que lhes escorre os poros, como seiva de rosas que transborda o derradeiro aroma em prenúncio de qualquer tragédia. A tragédia a consciência que aí há-de vir. Por enquanto, deleitam-se nas sobras do pecado de se renderem daquela forma a uma falsidade colossal. A ilusão lá vai desaparecendo a pouco e pouco. Aqueles corpos nus já não embelezam o interior. Em breve, haverá mesmo nojo. Não quererão saber mais um do outro, quererão apenas enfiar as roupas e despedirem-se, ansiando por um duche que lhes lavará a luxúria para longe da pele, ela será puta e ele será cabrão, assim no maior vernáculo que ao desesperado ocorre. Por enquanto, são amantes romantizados sob uma luz amarela de um candeeiro, num sofá verde roto, dentro de umas águas furtadas onde, se não haverá baratas, haverão ratos, onde os seus corpos nus transmitem beleza ao que naturalmente causaria, de outra forma, horror.
Já se afastaram. Agora, cada um deles está sentado longe do outro, de cabelo a pingar já do banho tomado. Não sentem nada na pele, qualquer formigueiro de excitação fora abandonado, fosse de que forma fosse. A água lava as impurezas, devolve a dignidade aos pecadores, é benta até no cano, se o beatificado quiser a redenção dela, esteja onde estiver. Nasce o sol, acende as luzes matinais num céu incandescente, e ao mesmo tempo, precisamente – mas sem o saber, nunca o saberão – pensão: tivémos um dia a união da mente mas ela foi estragada com a carne. E era verdade. Sabiam isso como regra. Em tempos, haviam sido unos, um só em espírito. Mas cederam à tentação, quebraram a barreira do espírito e penetraram na carne. E o muro erguera-se. E aquelas águas-furtadas seriam para sempre um escape de sexo, apenas essa banalidade desprezível. Ainda que quisessem mais do que isso, estavam condenados. Era inexplicável. Geralmente o amor o é.

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Abstracção #3

01:24

Desceram quando os copos de vinho terminaram. O interior do quarto ainda era de tons de verde e amarelos, mas já não havia mistério. Sempre o haviam sido, mesmo para ela, que ali entrava pela primeira vez. Tinha a sensação, contudo, que sempre vivera ali. Até conseguia ver as memórias a pairarem-lhe no espírito como projecções imagéticas de um passado inegável – era, afinal, um passado inegável – era o outro passado que era negável, não este, imaginário. Um grupo de pessoas, ali, sentados naquela carpete avermelhada, a fumar e a beber. A conversar por entre risos e a rir por entre conversas. As imagens distorcidas, rodopiando, luzes vivazes, um colorido inebriante, tinham mascado cogumelos e sentiam-se felizes, para sempre felizes, uma eternidade finita, mas plena de felicidade. Aí, os corpos eram mais do que veículos, eram autênticos instrumentos de manobra, um dom que podiam manejar e controlar de acordo com as suas únicas expectativas e desejos. Estavam sem roupas, porque essas eram as verdadeiras grilhetas, as correntes que lhes prendiam a metafísica à existência soberba do espírito. Arrancavam-nas por entre risos e cogumelos que mascavam. Eram livres no círculo que abriam dentro do quadrado, mas cada um era uma forma diferente. Todos eram polígonos.
Agora, via essas memórias que não eram suas, mas cria-as. Talvez lhe tivessem sido contadas no passado e ela apropriara-se das suas imagens em jeito de desespero de adaptação, inconsciente. Decidiram-se a dormir juntos, na mesma cama, porque duas carcaças não comprometiam a existência havia muito unida entre si da mente, do espírito. O corpo que agisse como quisesse e bem entendesse, desde que o espírito continuasse a encabeçar.
Deitaram-se a meia-luz. Uma meia-luz que atravessava as janelas, ainda amarela, ainda torrada e sumida, com um quê de melancólico. De braços debaixo da nuca, ela pensou que uma luz melancólica era tão certa quanto um rosto melancólico, que as mágoas da vida se espirram dos olhos para fora, da boca para fora – da carcaça para fora – e se projectam nas coisas existentes, colavam-se às suas formas gerais e distorciam-nas, transformavam-nas em outras coisas completamente diferentes. Aquela luz era melancólica mesmo depois de piscar os olhos uma quantidade de vezes. Continuava a ser melancólica.
Nenhum deles dormia, permaneciam assim, deitados e em silêncio. Estavam sem roupas porque se libertaram das últimas raízes, acima de tudo as dela, e a carcaça também necessita a libertação para a sua existência plena independente do espírito, talvez ainda submetida a ele, que convinha não perder as estribeiras dos membros. Permaneceram em silêncio por muito tempo. O silêncio não era incómodo, era um espaço onde não havia a necessidade de palavras, falava por si sem dizer absolutamente nada. Ou antes, não falava de todo, permanecia assim. A ausência de sons, por vezes, era boa, mas aquela ausência apenas trazia ao de cima outros sons, e eram esses sons que procuravam. Átomos dispersos de outras existências. A certeza de que não estavam sozinhos. 
Corpos eram corpos, afinal, eos seus cortnos, o que os definia, estava para lá do alcance de cada um deles. Prenderem-se à carne era tão desagradável como prenderem-se às caixas de coisas do passado corroídas e meio comidas por ratos, esquecidas na varanda. O homem do topo da montanha que o dissesse, ele próprio se libertara do corpo antes de a descer. Agora permaneciam assim, deitados e despidos, sem qualquer tentação. Não estavam nus – nu era uma palavra demasiado estática, evidente, directa até. Mas havia nela mais intimidade do que parecia, aliás, a nudez, para ambos, ia além da pele, dos ossos, dos músculos, do sangue, das veias, dos tecidos de gordura que os enchia. A nudez já havia muito que tiha sido exposta quando decidiram abrir as mentes ao invés do corpo, de despir preconceitos ao invés das roupas. As roupas vieram depois. Agora, caíam no chão como as grilhetas abandonadas do escravo fugido – libertados de si próprios. Não tinham forma. Não eram nem quadrados nem triângulos, eram forma etéreas, talvez fumo que pairava no ar, talvez duas nuvens, talvez apenas meros espectros, que o decidissem. Talvez até nada.
Ela adormeceu primeiro. Sonhou com uma sala escura, vazia, onde apenas uma ténue, ténue luz avermelhada espreitava através de janelas. Era oblonga, disforme, com um quadro branco ao centro. Filas de mesas brancas riscadas no tampo alinhavam-se no seu comprimento. Atrás, ficavam as janelas, de persianas semicerradas e aquela luz vermelha a espreitar através delas a emitir uma sensibilidade terrorífica, mesmo para si própria. Sentada à mesa, ela sentiu o frio do metal e do toque da madeira. Percebeu que estava nua – sim, pois agora era nudez, não era apenas um corpo despido, livre, pelo contrário, era algo mais – ali estava ela, nua, e ao mesmo tempo, presa na sua própria pele. A porta estava fechada, teve a certeza de que estava trancada sem saber como. No meio daluz, emergindo através dos raiares avermelhados, veio um rosto disforme, oblongo e de nariz adunco, dentes compridos, muito compridos, tinha um sorriso assustador por causa daqueles dentes demasiado grandes, roçavam o lábio debaixo mesmo de boca aberta, eram enormes e afiados, como garras, e brancos, muito brancos, como se quisessem raiar mesmo no escuro. Ria com malícia, por que razão fosse. E ela, nua encollheu-se porque estava nua e aquilo era horrível, porque estava para lá de nua, estava exposta, completamente exposta. À sua frente, por entre os dois braços estendidos sobre a carteira branca, estava um pedaço de papel. Não, não era um pedaço de papel, era uma carta, uma carta que reconheceu porque era a que escrevera ela própria. Mas desta vez, sabia, porque sempre se sabe o que não é contado directamente nos sonhos, a mente antecipa-se sempre, o que está para acontecer; ela sabia que a carta fora escrita para ela – por si própria? Sim, era isso, mas outra ela, talvez – quem?, a que ficara para trás, era isso. Abriu-a. Leu-a. Deu por si a chorar como reacção inédita mas esperada, quase química, porque as palavras tinham sido escritas para que chorasse. Diziam muita coisa, mas diziam também: estás pendurada numa ponte, abaixo está o rio, estás a cair, a cair, a cair, e não consegues parar, vais morrer, vais morrer afogada, partirás o pescoço a meio da queda, torcerás os ossos das pernas, morrerás afogada, paralisada, incapaz de morrer; penduraste-te na ponte e escorregaste, querias morrer e desististe, caíste, vais morrer, estás a cair, a cair, a cair. E à frente, aquele rosto ria, com aqueles dentes enormes, enormíssimos, gigantes, a rasgarem a pele do próprio lábio logo abaixo deles, a roçá-los com brutalidade, o sangue a escorrer da boca, e lentamente a esconder-se nas sombras enquanto o vermelho que trespassava as persinas pairava no ar.
Teve a sensação de que acordara muito tempo depois daquele rosto desaparecer e fechar a carta. Enquanto isso, sentia-se de facto cair, cair eternamente em qualquer coisa, mas não sabia se era a água do rio para onde se atirava ou não. Acordou no impacto. O corpo provocou um espasmo intenso que o despertou a ele também, dormindo a uma distância de um palmo dela, conseguia até sentir-lhe  respiração. E subitamente, estar ali sem as suas roupas parecia assustador, sentia-se exposta demasiado, atormentada pelo próprio corpor que lhe era prisão. Mas essa sensação em breve passaria. Por enquanto, apertava as mantas junto ao pescoço e entalava-as debaixo dos braços, olhando-o atentamente, de olhos muito abertos e a ofegar. E ele podia ver pelo rosto qualquer pânico, desavença da sua cabeça, qualquer desconforto que o sono lhe produzira.
Como se conheceram não interessa, facto é que o foi de dentro para fora e por meio de palavras que falvam mais do que aquele significado estrito que os dicionários dizem acarretar. A ligação do espírito nascera então, sem o corpo a perturbar. E quanto se viram pela primeira vez, nada interferira, não mais do que o que teriam esperado, dominados na mente, no espírito, treinados nas suas formas usuais.
Mas agora, ela acercava-se de uma estranha e súbita tristeza que lhe nascia de dentro, talvez provinda daquele inexplicável sonho. Era uma tristeza que simbolizava uma ausência de algo, e talvez tivesse a ver com qualquer coisa que deixara para trás, mas que agora não se lembrava. Era profunda. Rasgava um abismo dentro de si, através da gordura do corpo, através dos músculos, através da própria pele. Abria-se e sugava-a com força e ela deixava-se dominar porque não a entendia. Esquecia-se que, por muito que o suprimisse na consciência, ainda que se sentasse à beira de parapeitos a abanar as pernas, sentindo a adrenalina a correr-lhe o corpo em sinal de desejo súbito de viver, de noite, era dominada pelo subconsciente, e esse vinha sempre ao de cima, despertava de um lago adormecido, exibindo os dentes arreganhados e apresentando-lhe as verdades que deixava para trás. Dizia-lhe: não me esqueci, finges que te esqueceste, mas não me esqueci. A mentira deixava de ser mentira, era agora uma verdade, mas assim que os olhos abriam, a realidade desaparecia e aquele medo não tinha justificação, não compreendia as imagens nem tão pouco entendia o simbolismo daquele sonho, muito menos que maldita carta era aquela e porque lhe falava de pontes e de morte.
Com a tristeza vem sempre um fio condutor de uma série de sentimentos, bipolares e disformes, sem sentido que se possa ter por lógico, mas não terão de o ser, cada um será como é e de si nasce apenas o que lhe é natural e se permite a si mesmo a sentir. Dela, veio uma subsquente raiva, enquanto fixava o olhar nele, que lhe levava uma mão ao rosto enquanto lhe perguntava o que se passava. O sonho certamente que fora violento. Via-se-lhe no rosto, nas sobrancelhas arqueadas, os olhos ainda esbugalhados, os lábios separados, arquejando, arquejando, soltando pequenos gemidos de susto aqui e ali. Não lhe respondia porque procurava desfazer tudo aquilo na sua mente, mas a incompreensão apenas lhe ditava a raiva. A incapacidade de o entender dizia-lhe ser apenas raiva.
Do que se rasgara dentro de si, havia agora que preencher o vazio, e ele estava ali mesmo precisamente à espera de ser preenchido. A raiva era o primeiro ingrediente, já levando consigo uma pitada de incompreensão. Mal quis acreditar no seguinte, mas era aquilo mesmo que sentia – a luxúria, uma intensa luxúria que lhe trepava as pernas que parecia provir de pena de si própria – que nojo! Apertou mais as roupas contra si, mas enquanto a mão dele tocasse no rosto dela, a luxúria não desapareceria. Transferia-se assim o inédito ao ser estabelecido o primeiro toque de corpo a corpo, como nem ele mesmo se apercebera de que fazia. Para ele, estava simplesmente a chamar por ela, a segurar-lhe o rosto por isso mesmo, a querer certificar-se de que estava tudo bem. Para ela, estava acender as chamas que apagara, a exercer a prática condenável ao seu espírito que era o estabelecimento do primeiro contacto físico.
Afastou-lhe a mão. Estava tudo bem, pois claro que estava tudo bem, tinha de estar tudo bem mesmo que não estivesse, tinha de estar tudo bem mesmo que um movimento ininterrupto de raiva e incómodo crescesse em si, em desespero de apagar a luxúria. Afinal, havia mais em si do que aquilo, a carne era prisão, era prisão pelo menos ainda, ainda eram seres despidos do preconceito a viverem na liberdade da pele, a luxúria não podia vir ainda. Não se conheciam mais do que o interior – percebeu então, talvez tenha sido isso, não o poderia dizer com certeza, ms achou que sim: havia mais para conhecer. Afinal, se o corpo era veículo, tinha de aprender a conduzi-lo. Voltou as costas. Fechou os olhos. Haveria de adormecer, mas não ainda.

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Abstracção #2

01:21

Acima daquele lugar, havia um terraço. Ela gostava de terraços. Mais próximos do céu e longe do chão. Uma queda seria fatal, mas a ascenção angélica seria rápida. As estrelas estavam mais perto e a chuva caía mais facilmente, mas estrelas não se viam. Maior sinal de que estava viva não existia. Os pensamentos eram os primeiros a cair. A sensação de risco é que era fantástica. Gostava dela como de um vício. Sentou-se no parapeito de pernas estendidas, a abanarem contra a parede, ali de contraste com o chão mesmo lá abaixo. Um jeitinho e espatifava-se, mas dava-lhe adrenalina sabê-lo. Corria-lhe na pele a vontade de estar viva ao arriscar-se à morte. Em anjos, não acreditava, muito menos em infernos subterrâneos. Esse, vivia no intermédio. Debaixo do chão era só larvas e terra e ossos e fósseis – história por descobrir, talvez, enterrada, como lhe convém. Acima, era aviões, pássaros a enfiarem-se-lhe pelas turbinas para os espatifar e nuvens. Cosmos, estrelas, poeiras, galáxias, nublosas, a lua, planetas, mais luas, mais sóis, coisas que nem se sabia bem onde começavam e onde acabavam. Melhor assim. Mais valia que pontas soltas existissem no universo – nos universos, aliás, o dos vivos e dos mortos.
As pernas a abanarem davam-lhe arrepios de excitação no corpo. As unhas raspavam no betão como quem esconde qualquer vontade, mesmo não sabendo qual era. Ele apareceu pouco tempo depois. Trazia dois copos a transbordarem de vinho, como ela gostava, para não se perder tempo a voltar atrás para encher. Copos grandes, não dos típicos de vinho. Vidro grosso, quase inquebrável nos a-fazeres domésticos. E as pernas a abanarem, pareciam mais próximas do chão. Um jeitinho inconveniente, e lá se ia, a deslizar por ali abaixo até o corpo se encher de ar da queda e se esborrachar todo lá em baixo. Rebentaria antes de atingir o chão. A adrenalina dava-lhe forças para se manter quieta, mas abanar as pernas era relembrança do risco. A vida corre mais intensa quando se fareja a iminência de morte. Abaixo, larvas; acima, cosmos. Não há espaço nos extra-mundos para demónios e anjos. Esses, viviam entre os vivos.
Bebeu dois longos, longuíssimos, goles do vinho, até a garganta lhe arder. E depois, começou a falar: Sabes, disse, que quando uma pessoa se atira da ponte Golden Gate, chega a um ponto em que se arrepende. A queda é tão longa e demorada que, a maioria, arrepende-se e decide viver. Aliás, não decide, apercebe-se apenas que aquilo foi um erro. Mas já vai tarde. Já está no ar, a brincar aos aeroplanos, a atirar-se de cabeça para o rio que a vai matar com o impacto. Mas imagina só. Estar agarrado aos postes, os pés as escorregarem, embrulhado nas nuvens porque estás lá tão alto, a pensar que queres morrer. Não há nada que te prenda ao mundo. Provavelmente, perdeste tudo. Dinheiro, amigos, família, a casa, um animal de estimação. Principalmente, um animal de estimação, custa mais perdê-lo a ele do que aos outros. Às vezes, mais vale que a família se vá. O que é? Achas maldoso? Não é. Nem sempre, de qualquer forma. E uma casa é uma casa, dinheiro é dinheiro, que é que interessa? Está bem, está bem, neste mundo interessa, claro, mas este mundo está talhado para que interesse, para que forme a necessidade de tu teres dinheiro e uma casa. Planta notas que não nasce dinheiro, e uma árvore pode abrigar-te mais do que uma casa de um prédio barulhento onde o vizinho de cima de provocou uma infiltração e o de baixo dá porrada na mulher. É necessidade porque se impôs, não achas? E para quê ter, diz-me lá? Mais vale que não se tenha. O que não conhecemos, não nos faz falta. Alguma vez arrumaste sacos ou caixotes onde estavam coisas que não sabias o que eram? Aposto que os abriste e investigaste ao pormenor o que ali estava. Fizeste mal. Os caixotes lá devem ter estado numa varanda, já roídos de rataria e baratedo, e tu mesmo assim foste abrir e ver o que tinha. Para quê? Fez-te alguma falta, este tempo todo? Deitava-lo todo para o lixo, e acabou-se. E tu dizes: mas eu podia dá-lo a alguém. Dá o que conheces, é melhor. O que não conheces não interessa a ninguém. Dá o que já possuis a quem precisa e liberta-te tu do demasiado que tens. Os necessitados agradecem e o mercado livre também. Fomentas os dois. Fomentas o consumismo de um lado e a caridade de outro. E tu, ficas livre. Toda a gente ganha.
Mas estou para aqui a desviar-me. Aliás, desviei-me. Estava a dizer, porque fomos todos condicionados a necessitar indubitavelmente destas coisas, se as perdemos, sai-nos caro para a cabeça. A saúde é assim, principalmente a mental. E depois, provavelmente, terás um passado qualquer traumático que te empurrou para ali. A tua vida deve ter sido uma grande merda para te queres matar, sem ofensa. É assim. Somos espécimes triangulados, sabes? Existe nós, ou eu, ou o individual, um gajo só; e existe uma sociedade. Imagina que és um quadrado e a sociedade é um triângulo, e a vida, toda ela, é daqueles brinquedos para os bebés para encaixares as formas nos orifícios certos. Tu és um quadrado e a sociedade é um triângulo, não cabes, claro está. E no meio, está alguém que te vai delapidar, que te vai moldar para caberes na sociedade. Entretanto, o triângulo tem três lados e o quadrado tem quatro. E tu perdeste um lado para te encaixares. Perdeste qualquer coisa em prol da tua existência em comunidade. Ora que se foda a comunidade, não achas? Trepa uma montanha, vive debaixo de um carvalho e observa a comunidade à distância. Quando percebes como cresce o carvalho, de que maneira as raízes se enrolam na terra, como e onde é que vão buscar a água para sobreviver mesmo sem haver alguém que o regue, quando percebes porque é que chove e o sol brilha, e porque é que os dois são absolutamente necessários – enfim, quando percebes essas coisas todas que fazem a natureza funcionar muitíssimo melhor sem o homem, percebes que a comunidade é uma valente merda. Aqui estamos, a cortar lados a mais dos quadros para caberem num triângulo, e no meio, uma pessoa que segura a serra e te muda de um lado para o outro. E parece-te tudo muito bem, até subires à montanha e veres de longe. Quando desces, és outro. Para a comunidade, és louco, para ti próprio, és sábio. Um asceta. Pois muda-te, não há espaço para ti. Um contra um milhão é um número desencorajador, não achas?
Agora, lá estás tu, em cima da Golden Gate, a pensar que a tua vida é uma merda, que és uma formiga que foi pisada e não vale nada, que não fazes diferença qualquer à comunidade, se calhar até acreditas que és nocivo. Estás mesmo firme disso. Queres morrer. A vida não te vale de nada. É agridoce. Aliás, esquece isso – é azedo como tudo. E lanças-te. Assim, tão facilmente. É muito fácil fazer-se uma coisa destas quando se está preso no desespero, sabias? Acredita-se facilmente que não valemos de nada porque o enredo em nosso torno nos diz isso. É isto que o homem asceta percebeu quando desceu da montanha, ou do raio que a parta. Que todos nós vivemos presos ao exterior. O que nós somos é um espelhar da percepção exterior e isso está errado. Está errado porque não existe uma percepção única e pura, porque o mundo é talhado à base de diversas percepções que se conjugam numa barafunda de bandalhos que tentam sobrepor a sua própria percepção à dos outros. Estamos todos ligados por um fio que tecemos uns nos outros, nós próprios. Imagina que Ariadne tinha atado o cordel a si e a Teseu… Ou foi isso mesmo que ela fez? Não interessa, bom: imagina que ele não atravessava um labirinto. Só tinha de ir em frente. Atrás, lá estava a boa da Ariadne a torcer por ele e, ao fundo, o minotauro. Os gritos de força da Ariadne convenciam Teseu, está caro, mas assim que ele vê o minotauro borra-se todo. Afinal, não consegue derrotar aquele monstro, caramba, é só um e até é bem pequeno, se calhar até sofre de artrose e aquela espada custa-lhe a pegar, o escudo então é uma dor do caraças, eram feitos de couro, madeira e alguns até de metal, aquilo havia de pesar… Ai, não interessa! Mas Teseu, mesmo assim, atira-se para o minotauro porque, face aos gritos de Ariadne, não a pode deixar mal. Ela agora acredita que ele é macho a sério e isso seria desapontante para a donzela, não é?
Por isso, já agora, é que o homem está a cair da Golden Gate até ao rio. Porque houve uma qualquer Ariadne que lhe gritava nas costas que fosse qualquer coisa que ele não era – um triângulo, pois. Quando ele era, na verdade, um quadrado. Mas a queda é longa, afinal, aquela merda é alta… E quando salta, qualquer coisa o faz pensar rapidamente sobre o assunto e ele muda de ideias. Pensa bem: ele vai sentir o impacto, há-de partir uma quantidade de ossos, se o corpo não rebentar do ar que está para ali a inalar durante a queda. Afogar-se-á, por fim. Mas o tempo que vai demorar a morrer é demasiado. Eu acho que o que ele se apercebe é que recorreu ao método errado. Que, aliás, percebeu que não quer morrer, antes quer que a dor acabe, que as coisas mudem… E talvez tenha tido uma pequena consciência de uma ainda mais pequena possibilidade de, de facto, as coisas mudarem no futuro. Mas agora, já vai tarde. O método que ele escolheu para pôr termo à dor foi através de uma morte lenta e dolorosa. A meio da queda, está ele a ver o rio a aproximar-se e está a pensar que, afinal, quer sobreviver. Lá se enrosca a meio da queda para se amparar, para evitar morrer. Com sorte, não parte nenhum osso e há-de nadar, se souber nadar. Com sorte, cai de pé, ou qualquer coisa, e o impacto é menos bruto. Com sorte, até sobrevive. Se sobreviver, sai de lá um homem novo. Se não, morre lentamente, e mais duramente por se ter apercebido a meio da queda que, afinal, não quer morrer.
Parou de falar. Abaixo de si, o chão parecia mais próximo, mas não estava. Ela não tinha vontade de morrer; pelo contrário – tinha cada vez mais vontade de viver. Por isso é que ali estavam aquelas pernas a abanar, o chão cada vez mais ilusoriamente perto, o perigo a resvalar no parapeito de um terraço de um prédio de nove andares. O vinho escorreu, escorreu quente no pleno do frio. Abaixo, o chão, e com ele, as larvas, a terra, tudo o que constituía o prescindível. Talvez até o passado. O passado estava longe, escondido. Não existia anjos nem demónios, apenas uma re-interpretação do real denominada de etiquetas vernáculas, ou antes, palavras que se haviam banalizado.
E agora, pensa ela, abanando uma vez mais os pés. Abana ainda mais os pés quando sente que perde alguma fracção da sua vida. Se está aborrecida, abana os pés. Estão ambos em silêncio e apenas o vinho os preenche, apenas o vinho quente naquela noite húmida. Olha para ele. Não o consegue descrever. Tem rosto; tem olhos da sua cor própria, tem nariz, tem boca, tem pele de tom também seu, tem cabelos de formato que lhe competem de acordo com a genética que lhe está impressa e a forma que adquiriu dos progenitores. Não interessa verdadeiramente o seu aspecto, é apenas um aspecto. Ela nunca o conheceu até àquele momento e ainda não conhece. Não quer conhecer. Que permaneça assim, uma carcaça de moléculas, átomos e matéria interna e externa que se transcende no uso do mecanismo do corpo e não na carcaça. Na mente, nos gestos, no olhar, nas sinapses que emite o cérebro até às mãos que rodopiam o copo na mão a transbordar de vinho.
Bebe pouco. Está contemplativo. Ela sabe – de alguma forma, sabe – que ele pensa nas suas palavras. Pairam-lhe no espírito, tenta desfazê-las. Compreende-as porque lhe foram ditas na sua língua. Nenhuma lhe é insignificante. Conhece-as, sabe os seus significados, lidou com elas toda a vida, algumas mais tardiamente. Teve a sorte de saber quem era aquele Teseu e aquela Ariadne por amor à analogia. Mas a língua era uma mistura de sinais que se dissipavam no ar. Era percebida da sua própria forma. Havia ali índex e havia ali analogias e metáforas que demoravam a desfazer. A língua era um misto de sensações e percepções que algures na transmissão se tornava difusa, misturava, e tornava uma coisa diferente ou semelhante, ou mesmo igual, mas quem o poderia dizer, ao receptor. Ele parava para pensar nas palavras. Elas assentavam como gotas da chuva que resvalam as ondas da maré alta, embatendo em chicotadas nas vagas que se precipitam para rochas negras. São minúsculas face ao grosso, à massa, com que se deparam. Por isso, necessitam assentar, necessitam de tempo para encontrar a sua significância. E só passado algum tempo, elas adquirem um tom geral, um significado unânime, dir-se-ia colectivo, caem como torrente de tempestade sobre um mar agora já pleno.
Ele disse: uma vez, vi um homem atirar-se de um quinto andar. Ficou muito tempo pendurado na janela, com os pés a resvalarem o parapeito, agarrado às armações da varanda, desesperado. Via-se que não sabia se o havia de fazer ou não. Lá em baixo, as pessoas juntaram-se num turismo mórbido. Cobriam os olhos e olhavam lá para cima como aqueles que vão ao teatro e levam os binóculos para ver melhor ao longe. Era tudo um espectáculo, para eles. Acho que ninguém pensou que estava a olhar para um homem que se queria matar, pensaram que estavam a ver um homem pendurado numa varanda e isso tinha interesse porque quebrava qualquer forma de rotina, fosse qual fosse. E então, ele lançou-se, claro. Eu não vi a queda, foi demasiado rápida. Quando olhei, havia um corpo todo desfeito, a perna estava torcida que era uma coisa horrível, e sangue a escorrer por todo o lado. E subitamente, aqueles que olhavam para o alto curiosos ficaram horrorizados. Já não protegiam os olhos do sol, protegiam os olhos daquilo que acontecera, da morte que haviam testemunhado. Algumas pessoas ficaram brancas, tiveram de se sentar, ou entraram num café a correr a pedir água com açúcar porque estavam à beira de desfalecerem. Outras acorreram a ver se estava vivo. Desconfio que algumas só queriam mesmo ver a morte de perto. Houve quem se atrevsse a tocá-lo. Sim, atrever, porque testemunhar a morte é uma coisa já de si demasiado inédita, imagina tocar. Houve quem tivesse tal atrevimento. Se calhar, nesse dia, chegaram a casa e contaram à família: hoje vi homem morrer e toquei-lhe. E que espécie de gratificação tiraram daí? Se calhar, aprenderam ao que sabe, se parece, ao que se sente da morte. Tocaram um morto e decidiram que não queriam morrer, que queriam vivier para sempre no seu próprio tempo finito. Calculo que tenham vivido.
Ele parou de falar. Ela olhou para ele. Ainda não o conseguia definir. Perguntou: se eu caísse daqui e morresse, exactamente da mesma forma, serias capaz de me tocar depois de morta?
Ele respondeu: mas nem te toquei viva.
Voltou a abanar os pés; o silêncio caiu. O vinho continuava quente, embora refreasse. Ainda lhe queimava a garganta. Perguntou-lhe: quem és tu?
Ele respondeu: tu conheces-me.
O céu estava coberto de nuvens, e ela sentiu vontade de ver as estrelas. Mas não haveria estrelas naquela noite. Pensou: nunca vi estrelas; mas já as tinha visto, claro, quem nunca vira estrelas? Mas estavam também elas enterradas, longe dali, talvez abaixo do chão, com as larvas e a terra. Faziam parte do passado que abandonara, do seu eu deixado para trás numa carta selada (qual carta?) que ficara numa mesa de cabeceira, ao lado de uma cama que não sabia quantas pessoas tivera no leito até a ater abandonado – ou depois de a ter abandonado? Queria apenas ver estrelas. Sabia o que eram, mas ainda assim nunca as vira. Queria vê-las.
Ela disse: conheço-te. Percorres o caminho até à fonte e recolhes a água, mas tomas um desvio diferente para encontrares outras fontes. Às vezes, o balde não está cheio, calculas metricamente o necessário e percorres o teu caminho de acordo com as tuas pretenções, apenas. Consomes o que te é necessário, mas sorves de cada gota com mais vontade e delícia do que aqueles que carregam baldes a transbordar de água e percorrem o mesmo trilho em linha recta todos os dias. Algures, nas tuas caminhadas, creio que tenhas encontrado algum transeunte. Muitos transeuntes. Não traziam baldes e tu deste-lhes o teu, e mesmo assim, não passaste sede porque continuaste a respirar. És. Existes. Vês, com os olhos e a mente.
Ele bebeu, sorriu e disse: libertaste-me.
Não, disse ela, rindo. Todos nos libertamos, mais cedo ou mais tarde, se entretanto não nos tivermos empinado numa ponte, saltado e percebido a meio da queda que não queremos morrer. Até lá, temos sempre a possibilidade de nos libertarmos. Não ouviste nada do que te disse? A sociedade é uma triangulação. Tu não és um triângulo nem um quadrado. Acho que és… Um hexágono. Tens muitos lados e todos te são preciosos. Mas em tempos, foste um octógono. Talvez até mesmo um quadrado. Abriste-te, criaste mais lados. Essa foi a tua libertação. Podias ter sido um quadrado mais pequeno ou simplesmente um rectângulo e ter-te espremido no espaço do quadrado. Ias então pensar que algo estava errado contigo, mas não. Percebeste que algo estava errado com o colectivo, não contigo, e libertaste-te a ti próprio. A nossa libertação vem sempre de dentro, nunca de fora. É um acto de força que não julgamos possuir até acontecer. Eu não fiz nada. Aliás, tudo o que fiz foi… Existir, creio. Ouvi-te, li as tuas palavras, percebi-te. Respirei-te. Respiro-te.
E vês-me, acrescentou ele.
E vejo-te, concluiu ela. Fez uma pausa. Acrescentou: mas não te conheço inteiramente. Há qualquer coisa que falta.
Não, respondeu ele. Não estava sentado como ela, não à beira do parapeito, não com as pernas esticadas, não arriscando um ligeiro desvio que arriscasse a morte. Ele vivia na segurança. Não necessitava a adrenalina. Não, repetiu. Não falta nada. Tens os pedaços de mim, cabe a ti roganizá-los como te convém.
Mas como me convém, interpelou ela, pode não ser quem tu és. E se eu te construo como não és? Não seria muito diferente de eu te transformar num quadrado, simplesmente seria uma ilusão. E eu viveria para sempre a acreditar que eras um quadrado, iludida.
Mas não o farás, respondeu ele.
Como o sabes?
Também não és um quadrado.
Ela abanou as pernas. E o que sou, perguntou.
És um círculo. Ele olhou-a. Ela teve a sensação que lhe decifrou a cor dos olhos, mas não podia ter a certeza. Havia luz neles, pelo menos; um brilho. Poderia ser deslumbre, deleite, qualquer coisa. Qualquer coisa interna como tão banalmente é descrito nos livros que as pessoas se incendeiam quando se emocionam com qualquer coisa. Aquilo não era emoção, contudo, era sinceridade. Eu vejo-te, disse ele. Vejo-te porque respiras.
Estavas à minha espera, disse ela, mas não sabia dizer se aquilo fora uma pergunta ou uma afirmação. Talvez não fosse nenhuma. Um pensamento que lá encontrara o seu caminho através das cordas vocais, os lábios, e lá se escapara, de alguma forma, verbalizando-se a si mesmo. Às vezes, os pensamentos ganham vida e saem, não se controlam. Os cosmos que decidissem se era uma pergunta ou não. Se ele permanecesse em silêncio, seria uma afirmação. Caso contrário, haveria qualquer esclarecimento. Não podia sequer saber com que medida a esperara, porque haveria de esperar por si, nada os levara a esperar um por o outro, não tinham nada para esperar – quem eram?, como se conheciam?, como haviam chegado até ali?
Não estava à espera, respondeu ele. Se esperasse, isso poderia conduzir-me à exaustão. Mais vale não esperarmos. O inesperado é mais agradável. Sempre me foste inesperada, e agora ainda mais, aqui, em carne e osso, em forma e matéria. Mas eu já sabia como eras.
Ela riu. Não rias, interpelou ele. Não falo do teu rosto, do teu cabelo, das cores que constroem a tua paleta geral… Falo de quem és em matéria. As palavras disseram-mo. Já nos conhecíamos antes. Isto é apenas o terminar de um contrato. Chegámos ao fim.
Ou talvez tenhamos chegado a um início, disse ela.
Tu, sim, interveio ele, definitivamente que chegaste ao início. Por isso é que és um círculo.
Mas existe um corpo, disse ela. Vês-me. Como é ele?
É apenas um corpo, para mim. Ele existe porque precisas de te mover, de existir em matéria por entre nós. Porque hei-de dar importância à sua forma? Vejo-te, mas não te vejo, ao mesmo tempo.
Vês o que te interessa, disse ela.
E o que interessa é o importante, respondeu ele.

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Abstracção #1

01:19

Ficara uma carta na mesa de cabeceira. Mais valeria o método de despedida à antiga, rabiscada pela própria mão em sentimento de intimidade, de quem, por última clemência de qualquer acto cruel, demonstra uma réstia de compaixão. Nas máquinas há distância. Há afastamento. Há frieza e apatia. Uma mão que escreve está sempre ligada por mente e veias a um coração que bate.

Agora, esperava a abertura da carta em pensamentos. Depois de escrita, não haveria maneira de saber a consequência que causaria. Não a queria imaginar. Seria apenas uma carta, agora. A mão assinara em fechamento oficial das palavras de despedida e a cola fora lambida em encerramento definitivo de um episódio da vida. Agora, era máquina, estava separada por um vidro ou ecrã, por uma distância inquebrável. O fim; o começo; um círculo infinito. Talvez ali regressasse, talvez não.

Não interessa onde está, apenas que não é o mesmo lugar onde esteve. Está frio. Veste um casaco insuficiente para a humidade que transpõe a pele e racha os ossos. O cabelo humedece-se com o peso dela. Os dedos estão trémulos, mas apertam as abas das roupas para se proteger. Há uma película brilhante que cobre o alcatrão e o pavimento liso e cinzento. O som de pneus a rodopiar sobre a estrada, os carros a passar, assemelham-se bastante às ondas a girar sobre areia quando fecha os olhos. Poderá imaginar que se encontra num local bem mais agradável, como uma praia – não que o local exacto não seja então agradável, mas qualquer escape atendido às circunstâncias é agradável, seja uma praia, seja uma tempestade a cair sobre rochas. Para quem deixou uma carta selada e escrita à mão sobre uma mesa de cabeceira em sinal de partida, de abandono, de esquecimento – que o decida quem a ler – a visão de um cenário hipotético torna-se uma fuga. A circunstância não pode ser agradável.

Há passos e passos, mas passos há sempre. Há sempre passos assim como há gente que circula por todo o local do mundo. Não atenta aos passos, até gostaria que desaparecessem. Quando os passos que se destinam à sua aproximação se antecipam, não os ouve porque passos sempre existirão e aqueles não são diferentes dos restantes. Pensa nessa hipótese mais agradável do que então. Pensa na fuga que cometeu mas que poderia ter cometido de outra forma, ou para outro lugar, se tivesse essa opção. O desamparo empurrara-a até ali, fosse ele qual fosse. Ali, não era coxa, tinha muletas, tinha suporte, que andasse, que andasse em consonância daqueles milhares, ou centenas, ou biliões até, de passos. Mas onde está não interessa verdadeiramente. Interessa mais onde não está – ao lado da carta fechada que escreveu com a própria mão, para apaziguar a frieza do acto. Talvez estivesse sozinha, talvez estivesse acompanhada. A cama era larga o suficiente para dois, mas de que modo poderia ter a certeza de que se fizera acompanhar no sono não sabia. Mais valeria que se esquecesse. Para trás.

Só levanta a cabeça quando escuta uma voz, misturada em todas as vozes, que tal como os passos, sempre as ouve, sempre as haverá, sempre combinarão com a existência do ser que caminha. Enquanto existe, caminha; enquanto caminha, fala. Uma voz fala e só lhe acode ao olhar porque é dirigida a si. Sabe-o porque o que pronunciar é o seu nome. Mas não a reconhece. Não pode, aliás, reconhecer, porque nuca a ouviu, nem tão pouco lhe viu os passos. Não sabe quem é e conhece inteiramente. Conhece de dentro para fora sem tão pouco ter visto o lado de fora. Um avesso desconcertante e arriscado. Mas ali está – no lugar oposto àquele onde não está, perto daquela carta.

O outro ser apercebe-se de que existem lágrimas nos seus olhos quando levanta a cabeça. É um mistério o porquê, mas não é inédito dada a circunstância. Combinam, até, com a chuva fina que espirra das nuvens grossas. Parece um ambiente perfeito, quando posto lado a lado, como que emoldurado. Será de esperar, talvez. Agora, só tem que se levantar, juntar os seus passos aos restantes e entrar num carro que a conduzirá a um outro local, um local que, como aquele, nunca viu, não sabe qual é, excepto que não é o que deixou para trás. Há que limpar aquelas lágrimas primeiro, contudo; causam irritação nos olhos e o ar está demasiadamente frio para eles arderem. E lá vai.

O percurso poderia ser silencioso. Não foi, mas não interessa, porque perdeu a relevância. Estas palavras, agora, não são como as outras, antes entram num espectro de intimidade que sempre existiu, mas de nova fórmula e aspecto. A viagem é uma maturação inédita do acarretar de consequências, de um misturar com a consciência que se recusa a admitir qualquer coisa – que para trás, ficou uma carta ao lado de alguém (ou ninguém?), por exemplo. Cheira a tabaco, ali. Ele fuma, pensa. Tanto melhor, completa, e puxa também de um cigarro sem qualquer permissão. Que o faça. Não haverá agora impedimento que se lhe possa atribuir. As relações entre morais e acções foram quebradas a partir do momento em que se sentou na luz pálida da manhã nublosa a escrever aquelas palavras. Não eram novas; não foram então pensadas. Estavam memorizadas havia muito tempo, já queriam sair havia dias. Finalmente saíram. Eram agora livres e exerciam a sua liberdade sobre outro – e prendiam-no. Se a ela a liberara, também prendera. Perde-se sempre um pedaço de si próprio quando se avança. Fica sempre um decalque na superfície que se pisa. O soalho não fala, mas range; as paredes não cantam, mas caem sempre. A tinta lá se vai lascando, há-de sobrar o arcaboiço de uma edificação velha de séculos idos, toda ela de madeira. Apostaria que há por ali ratos, mas também isso não interessa, porque os ratos podem viver, agora; não a incomodam. A menos que exista outro inquilino a quem incomodar. A pouco e pouco, vai-se esquecendo disso.

A viagem é uma maturação. Como se nas últimas horas, regressasse ao embrião do útero que abandonara anos antes e renascesse. Repetira todo o processo naquelas sete ou oito horas, ou coisa que o valha. Talvez mais. E agora, imaginava que existia uma outra vivência que a transformara em alguém. Estava também com a sensação de que vinha aí uma bruta dor de cabeça. A língua seca; tinha sede. Uma comichão percorria-lhe a perna como se nascesse de dentro, talvez fosse aquela vida passada a querer mostrar-se no presente. Coça-te que isso passa – demorou, mas lá passou. Agora, está a maturar. Enquanto estava sentada num banco de madeira humedecida do inverno, de cabeça apoiada numa mão que tremia de frio porque lá se apercebeu que a roupa mudava tanto quanto a cultura de país para país, não fosse o cinzento climático ter diversos significados de nação para nação, fora adolescente. Agora, já era mulher, feita e preparada, ainda que fresca de renascida. Queria fazer era disparates, como recém-mulher. Estava na idade da intriga. Mais uns minutinhos e aquilo passava.

Passou. Quando o carro parou, renasceu para a idade actual, fosse ela qual fosse, certamente mais do que tivera dentro daquele carro, ainda mais do que tivera naquele banco, e abismalmente diferente do durante da viagem. Aí, era quase bebé. Saiu para o ar frio já sem sentir o peso da humidade. Era só frio, agora. Já estava. Aceite, comprometida com outro lugar. Já não se lembrava da carta escrita pela própria mão nem do corpo, ou não, que dormia ao lado dela e que lá acabaria por a ler. Já só restava uma sensação de vai-vem daquela comichão que, agora, não sabia interpretar. Mudou-se, assim. Rapidamente.

A porta abriu. Uma porta que dava para uma casa que nunca vira na sua vida, daquela pessoa que até então não conhecera por fora, apenas por dentro. Agora, pode vê-la. Meu Deus, parece um santuário, pensa, e cheira terrivelmente a incenso. Terrivelmente mas não no sentido negativo, antes agravado. Cheira bem. Até gosta do cheiro a incenso. Tem quase a certeza que é de tangerina. Há ali um buda pequeno numa mesinha e um póster de uma banda. Não interessa qual a banda, se se disser e se se descobrir, distrai-se. Ela prefere não conhecer. A cama é rasa, está ao centro, como se não houvesse mais compartimento algum naquele cubículo. Não é tão cubículo assim, convenhamos. Lá se abre para outras coisas do essencial, como cozinhas e casas-de-banho. Mas que tem em falta uma sala comum, tem, talvez sofá e mesinha de café para se fazer migalhas à vontade. Tem aspecto de casa de estudante. Até pratos sujos empilhados numa secretária tem. Mas não lhe incomoda. Sente-se em casa; não tem outra, só tem aquilo. Sente que nunca esteve noutro lugar porque o passado desapareceu. Afinal, renasceu há pouco tempo.

É tudo amarelo e esverdeado. Almofadas, colchas, coisas que por aqui e ali despoletam em tons de verde e, as luzes, essas, de fora e dentro da casa, são amarelas como o sol torrado difuso pelas nuvens. Amarelo e verde. Há qualquer conforto nisso, não sabe qual. Não lhe interessa. Decidiu-se a não questionar. Agora, senta-se a uma cadeira e larga a mala no chão – pois traz uma mala, até se esquecia. Não é muito grande, não se preocupou com empacotamentos de grande necessidade. Roupas, higienes e o suficiente para recriar, renascer e sentir-se humana com tudo o que precisava a subsistir. Menos dinheiro, diga-se. Dessa, terá de se desenvencilhar brevemente. Embora ainda exista ali qualquer coisa nos bolsos – e na carteira – e numa outra carteira dentro da mala. O resto, ficou no banco. A icinerar-se nas calhas económicas, agora que poderia apostar que nunca mais o veria. Tanto melhor para os balofos do outro lado do balcão e os grisalhos da cartola. Agradecer-lhe-iam. Julgava que sim. Desde que não soubessem da carta (qual carta?).

Sentaram-se logo a conversar. Ele perguntava-lhe porque estava a chorar, e ela abanou a cabeça porque se esquecera, porque isso era de outra vida, era ainda um espectro fantasmagórico ali a alcançá-la, a tocá-la, a tentar chegar-se perto dela para lhe entrar no corpo e dizer, ai de ti que me deixes. Deixou. Ele perguntou: porque é que vieste para aqui? Ela respondeu: porque sou exilada. E porque és exilada, pergunta ele. Também disso já não se lembra (qual carta?). Basta-lhe encolher os ombros. Ele também não se importa. A sua existência não se resume a perguntas e respostas, mas às moléculas, átomos e matéria que a compõe enquanto corpo e mente. Talvez também já tenha deixado coisas para trás – estava sempre a deixar, aliás. Nele, não havia raízes, já ela tivera de as cortar. E aquela comichão ali a acudir-lhe à perna, além de desconfortável, era feio de se ver como se torcia. O que está para trás desaparece se se cortar com força suficiente. Ele perguntou o que pretendia ela fazer. Ainda pensou um pouco antes de responder, mas resumir tudo aquilo em frases e frases e pensamentos que nunca mais acabavam afigurava-se-lhe a uma inutilidade enorme. Viver, respondeu. Pois de morrer é que não havia. Perguntou-lhe, tens alguma coisa que se beba? Ele levantou-se. Queres água? Não, queria outra coisa. Havia vinho. Ainda melhor.

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