Cinema

O Lagostim

20:57


Num futuro distópico, é ilegar ser-se solteiro. O modo como isto se aplica no mundo é simples: aqueles que, por infortúnio, dão por si sem cara-metade, são enfiados num Hotel onde têm um tempo limite para encontrar alguém com quem passar o resto da sua vida, num tempo limitado. Ocasionalmente, vão caçar "solteiros" que vivem renegados na floresta com dardos que, segundo o filme, é só para adormecer, mas o que é facto é que toda a gente que é atingida por um não volta a aparecer no ecrã. Aqueles que, ao fim desse tempo, não encontrem a sua cara metade, são transformados num animal à sua escolha. A personagem de Colin Farrel escolhe ser uma lagosta, porque elas são tipo imortais até vir um gajo e enfiá-la numa panela (juro que isto é uma frase do filme). A premissa é interessante, pensava eu.

A primeira cena mostra uma mulher a conduzir. De repente, pára, sai do carro e dá um tiro num burro. É crua, porque vemos o outro burrinho a aproximar-se tristemente deste burro morto. A mulher entra então para o carro e regressa para de onde quer que seja que tenha vindo.

E nunca mais a cena é referida.

A mulher, vemos mais à frente, é chamada pelos restantes hóspedes de hotel de Mulher sem Coração (está literalmente nos créditos). É fria, cruel e sem qualquer tipo de empatia pelos outros. É a mulher que a personagem de Colin Farrel escolhe para cara metade porque tem cabelo curto e ele gosta de cabelo curto - porque sim, já percebemos, o mundo é frívolo e esta distopia é uma crítica à ansiedade em encontrar uma cara metade. Farrel decide que é mais fácil fingir sentimentos que não se tem que fingir que não se sente nada, e finge também ele ser uma bestinha que gosta de dar tiros a burros (ainda não sabemos porque é que aquilo aconteceu, atenção). Mas para provar que ele é um coninhas, decide matar o cão que traz consigo que é o seu irmão. Porque até agora, não bastava matar burros (e não, ainda não é dito porque é que ela matou o burro).

No Hotel, masturbação é proibida, mas estímulo sexual é incentivado. Por outras palavras: esgalhar o mastro é uma vergonha, mas ter a criada (sim, a única do hotel) a roçar as nalgas na verga, pode ser. Não é bem dito porquê, se não para, talvez, deixar os homens à beira de rebentar a bolha para depois ela se levantar e dizer "parabéns pela sua fantástica erecção" e pisgar-se. Parece-me uma abordagem um pouco supérflua da questão da sexualidade (talvez porque a masturbação seja exclusivamente um acto de sexo solitário, sinónimo de solteiro?) e o que poderia ser mais aprofundado fica-se assim por umas cenas de nalgas a menearem sobre a virilha de algum pobre coitado. Até que um fanhoso (literalmente, a personagem dele é o fanhoso) é apanhado a afiar o lápis e, como castigo, enfiam-lhe a mão numa torradeira.

Há ainda apresentações dos perigos de estar solteiro: se és homem e estás a comer sozinho, vais-te engasgar e morrer, já que toda a mulher deste universo cinematográfico traz o pré-rquisito de saber Heimlich. Se és mulher e estás sozinha, vais ser violada. Porque, então, a única coisa que a distopia feminina tem a oferecer é violação! Então como é que se aprofunda a ideia de uma sociedade obcecada na ideia de co-dependência por fim a combater o individualismo, a ponto de tornar compulsivas as relações românticas e sexuais, legislando-as inclusive? Diz-se que a gaja que anda sozinha é violada, claro.

É depois da Gaja Sem Coração matar o cão, ahm, irmão de Farrel que ele se pira e foge para a floresta. Aí, conhece Léa Seydoux, líder dos Loners - hah - que são um grupo rebelde que se virou contra a sociedade e vive em solidão, celebrando precisamente o facto de todos serem não só solteiros como sem qualquer interesse no romantismo. É um daqueles momentos agridoces porque foi perdida a oportunidade de se empregar o termo ASSEXUAL com toda a força, mas não aconteceu; e ao mesmo tempo, ficamos a pensar que teria sido uma perda ir-se por esse caminho porque estes gajos, afinal, também são extremistas: quem for encontrado nos amochanços, no roça-roça ou - pior - a rebentar bilha, é castigado. É-nos dado um desses exemplos de castigo: os lábios são cortados e eles são obrigados a beijarem-se. Aqui, esgalhar o pessegueiro já é altamente incentivado. Porque a sexualidade está sempre presente, mesmo quando se pertence a um grupo que podemos assumir não ter qualquer interesse nela.

Este grupo, de quando em quando, veste roupinhas chiques e vai à Big City. Para quê, não se percebe. O que entendi é que vão ver candeeiros e que a Léa Seydoux tem saudades dos pais. Mas não há uma razão concreta para isso. Não voltam de lá com informação nova, não vão fazer nada de revolucionário, não vão sequer falar com mais ninguém que os pais da líder que acreditam que a filha trabalha numa Empresa Importante. Fica assim no ar a ideia de que é para "treinarem", mas para quê, não faço ideia. Se é para aprenderem a misturarem-se na sociedade, então para quê a necessidade de serem extremistas assexuais e não-românticos, se não há qualquer objectivo com isso? Talvez vão matar saudades de terem pertencido ali? Ou então era mesmo necessário este plot-point existir mas ninguém pensou bem no porquê, ding dong.

Farrel e Weisz apaixonam-se. Aliás, quem narra é Weisz a partir de um diário que, descobrimos no desenlace, a criada do Hotel (que está de paninhos quentes com a organização) descobre abandonado. Como é que ela o achou, não sei. Mais, como é que a Weisz perde a merda do diário onde literalmente conta todos os seus segredos e não dá conta disso, nem chega a perceber até ao final do filme como é que as pessoas ficaram a saber que ela andava a partir bilha com o Farrel, passa-me completamente ao lado. Teria sido, a meu ver, um plot-device interessante para explorar a hipocrisia o individualismo extremo deste grupo - o diário poderia ser roubado porque não gostavam que ela andasse sempre a escrever, porque esse individualismo se quebra na necessidade preservação sob a lupa do extremismo - mas nem sequer vemos a personagem a escrever uma palavra. Ele existe, e temos de aceitar que, um dia, caiu ao pé de um rio, e nunca mais é referido.

Léa Seydoux leva então Rachel Weisz ao médico, porque há aqui uma coisa que é genuinamente interessante. Já que esta sociedade é fria e estúpida - a maneira como as personagens falam é quase robótica, porque a necessidade de viver lado-a-lado de alguém por puron respeito à lei, a compulsão no casamento, é tal, que as personagens encontram apenas uma Caracterísca Comum: Ben Whishaw, por exemplo, finge que sofre de sangramentos do nariz espontâneos (dando uma puta duma cabeçada nos móveis) para ficar com uma rapariga que sofre do mesmo. O gajo fanhoso, além de ser fanhoso, é coxo, e chega-se a referir que "há aí uma gaja coxa", ao que Whishaw responde "népia, é só um entorce, amanhã está boa". Weisz, por sua vez, vê mal - e Farrel usa óculos. Este é o ponto que os une.

De maneira que quando Seydoux a leva ao médico, é para lhe curar a vista. O que de si só, é prenúncio para o fim da relação, se ao menos esta questão estivesse melhor estabelecida eu tê-la-ia sentido como choque. Mas não, ela vai cegá-la. E lá vai ela, cega.

E os dois deixam de ter então algo em comum.

Mas a relação continua, e no final, os dois fogem e vão para a cidade. O filme termina com Farrel enfiado na casa de banho com uma faca apontada aos olhos enquanto Weisz espera na sala. Nunca vemos o que faz e as opções são óbvias: A) arranca os olhos; B) finge que arranca os olhos, mas afinal ama-a à mesma, porque aprendeu a amar!, C) baza e caga nela porque não consegue fazer nem um nem outro. Ou seja, não sabemos bem se ele afinal é uma lagosta ou um lagostim.

E a única coisa que não sabemos no final é porque é que aquela gaja matou o burro.

O filme tem potencial, mas é uma salganhada de conceitos explorados sob o prisma de uma visão artística qualquer que não apanhei. Metade das coisas são salpicadas assim pelo enredo fora, e é suposto apanharmos. Numa cena, vemos os Loners a "atacarem" o hotel. Três deles vão ter com o manager, atam a mulher a uma cadeira põem-lhe uma arma na mão e dizem que, se souber sobreviver sozinho, que a mate. Ele dispara, mas a arma está vazia. Ao mesmo tempo, Farrel visita Whishaw com a sua nova família (a gaja que sangra do nariz e a "filha adoptiva" que, aqui, é introduzida como mecanismo de resolução de problemas maritais - lol) e confessa que ele na verdade não sangra de coisa nenhuma, mas esmurra-se que nem animal e despeja ketchup nas roupas.

Por fim, vão embora.

Eu fiquei com a ideia de que isto aconteceu para distabilizar: asism, estes casais separam-se e tornam-se também eles Loners. Mas não é isso que acontece. Já o meu namorado, mais inspirado que eu, disse que era pura e simplesmente para revelar a hipocrisia da sociedade. Está certo, mas eu teria preferido a minha solução, talvez porque gosto de ver os estúpidos sofrerem, ou porque, a meu ver, metia mais o dedo na ferida e aprofundaria a questão de um gajo hiper-defensor de um princípio ver-se, subitamente, no espectro oposto da questão, forçado por fim a ser uma coisa que sempre desprezou (meio caminho andado para a tragédia).

Eu sei que este tipo de filmes é suposto "apanhar-se" algumas coisas, e que o realizador e o guionista não têm de entregar toda a informação de bandeja. Mas quando o espectador sente demasiadas falhas, o inevitável é que haja uma suspensão da descrença. Talvez eu em particular me foque demasiado em detalhes que até não teriam interessado, mas a realidade é que passei grande do filme a pensar "e então?, é só isto?" porque as coisas desenrolam-se sem grande nexo. Aliás, a primeira parte do filme, antes de Farrel fugir, podemos quase baralhar as cenas (se retirarmos a contagem decrescente dos dias que lhe restam) e a coisa muda pouco, o que me diz que há pouco consenso evolutivo na narrativa. O que pode ser bom ou mau (Lynch faz filmes sob o mesmo princípio, mas Lynch é Lynch, e ao menos admite que não faz ideia do que é que está a fazer porque não interessa). Mas neste filme, falha.

O princípio, o tema, a premissa - tudo isso promete, mas não entrega. Os conceitos navegam assim um bocado na incerteza, estão à espera deserem pescados. Não percebemos porque é que vão caçar Loners. Não percebemos porque é que os Loners vão à cidade. Não sabemos mais deste mundo que não aquilo que é mostrado: que na Big City, é frequente revistar-se as unhas e os sapatos (para saberem que não são Loners disfarçados), que pedem pelo registo de casamento como pedem pelo BI, que é crime ser-se solteiro. Mas nada mais. E como comentário social, o filme delega essa função apenas para as personagens que, me parece, carregam aqui uma demanda demasiado grande. É que na salganhada toda de conceitos abstractos que anda ali à espera de ser apanhado, as coisas, a meu ver, perdem-se.

Tenho, ainda assim, de elogiar a eficácia numa coisa: o lado satírico que demonstra o que é viver num casamento arruinado, a isnerção de crianças como modo de solução aos problemas maritais, ou a pressão extenuante em encontrar parceiro. A personagem que, a meu ver, merece mais mérito é a Mulher dos Biscoitos, e que é utilizada quase como ponto de compração ou como ponto de ignição nas decisões dos outros do que no seu potencial completo.

De resto, são duas horas que não vou recuperar.

E no meio disto, fiquei sem saber porque é que a gaja mata o burro no início.

P.S.: Decidi acarinhar as personagens de Farrel e Weisz com duas focas porque seria o animal que eu escolheria.

P.P.S.: É possível que tenha escrito mal o nome dos actores, mas não me apeteceu ir ao google.

As novas tecnologias arruinaram a sociedade, diz o crítico através do seu iPhone 7

18:38

Thomas Edison era um bruxo e a electricidade mata gatos. Criticar as novas tecnologias é tão pão-nosso-de-cada-dia que cada vez que vejo uma nova onda de "artista demonstra a verdade sobre a nossa sociedade viciada em redes sociais" suspiro e sigo em frente. A verdade é sempre a mesma: estamos sempre a olhar para telemóveis. Leiam livros! Saiam à rua! No meu tempo brincava-se ao ar livre e as pessoas conversavam umas com as outras quando iam jantar fora. Já mais do que uma vez fui a um bar e vi a infame plaquinha do "não temos wi-fi, falem uns com os outros". Mesmo que eu até nem queria usar o meu telemóvel, a geração mais velha está me sempre a relembrar que eu sou uma merda só por ter um.
Dos cartoons do New York Times aos projectos fotográficos, dizem todos a mesma coisa. Selfies são egocêntricas e já ninguém sabe viver sem tecnologia. É normal que não saibam. Se hoje em dia, quando fico subitamente sem telemóvel e tenho coisas combinadas, alguém sempre me diz "faz à moda antiga, no meu tempo combinava-se um dia e hora e estava feito", mas suponho que seja por isso mesmo que esse tempo tenha originado uma série de filmes melodramáticos sobre mulheres deixadas penduradas em mesas de restaurante à luz das velas, talvez porque não havia telemóveis para telefonar e perguntar "mais cinco minutos e vou-me embora". Se saio de casa e me esqueço do telemóvel, alguém me diz "lê um livro, antigamente era o que fazíamos", só que ao menos uns phones nos ouvidos impede aquela senhora que sem aviso se vira para mim e pergunta "o livro é bom?" a tentar meter conversa, e vamos lá com deus, ninguém gosta que metam conversa consigo num autocarro público, excepto nos filmes do Woody Allen. É sempre o mesmo que se diz, uma geração ressabiada por ver os mais novos carregados de coisas novas que não sabem mexer, a vê-los guardarem para sempre na internet uma fotografia de si próprios enquanto a única fotografia sua de quando tinha 20 anos desapareceu quando se casou. 

Não é que não haja críticas a fazer, é que se diz sempre a mesma merda e já cansa.

Passarei a exemplo prático.

Chompoo Baritone, fotógrafo da Tailândia, criou um projecto que supostamente recria a verdade por de trás das fotografias do instagram. São pequenas narrativas de como as nossas postagens nas redes sociais - nomeadamente por meio da fotografia - cria ilusões de histórias que queremos passar, mas que na realidade não estão lá. Também já ouvi essa. No início dos anos 2000 era o photoshop. Uma pessoa tinha um photoblog, postava uma foto mais decentezinha e meio mundo vinha dizer que era photoshop. A certeza era tanta que me lembro de folhear revistas com amigas na escola secundária e por cada fotografia onde a gaja fosse giraça, vinha sempre uma que dizia "isso é photoshop", mesmo que fosse um paparazzi da mulher a sair do carro de xoxa ao léu. "É photoshop" era resposta para tudo. Suponho que hoje o argumento se tenha adaptado um pouco, dizem o mesmo mas para o instagram.

Pelo menos é o que este artista está precisamente a fazer. A meu ver - e estamos estritamente no campo da opinião pessoal - fá-lo tão bem como quando a minha cadela me tenta obrigar a sair da cama raspando as patas no edredão.

Passarei a relatar foto a foto:


O que a foto diz: fiz o pino num parque.
A verdade: uma amiga segurou-me os pés.
A crítica: no meu tempo, era nos pátios de cimento, debaixo de telheiros de zinco, que se fazia pinos. E gaja que era gaja empinava-se de saia ou calça, não era cá com roupinhas de treino, e fazia-se pinos sobre pinos até que a última da pilha já so tocava com o pézinho na xaroca da primeira. Ninguém segurava pés a ninguém.


O que a foto diz: comi salmão com legumes e arroz.
A verdade: o gato ia-me comendo o salmão com leumes e arroz.
Crítica: os livros não se usam para apoiar os pratos, para isso existem umas coisas redondas muito giras e baratas no IKEA.


O que a foto diz: tenho um mac.
A verdade: vivo numa pocilga.
Crítica: pinhas nos lençóis são um terrível motivo de decoração. Arrume o quarto antes de tirar uma foto. Se calhar o quarto foi arrumado depois de tirar a foto. 


O que a foto diz: eu numa paisagem urbana bonita.
A verdade: eu numa paisagem urbana que nem é assim tão bonita?
Crítica: há aqui qualquer coisa que me está a escapar.


O que a foto diz: eu na praia a apreciar o bom tempo
A verdade: quem foi o porco que deixou a garrafa de água na areia??
Crítica: a malta perde tempo a tirar fotos artísticas e perde o rasto dos miúdos que fogem para o mar.


O que a foto diz: tenho umas plantinhas giras.
A verdade: talvez tenha plantas a mais.
Crítica: depois de romper com a sua namorada, e ao fim de dois meses de crise, Manuel percebeu que a jardinagem afinal não é para si.


O que a foto diz: fui jogar ténis.
A verdade: mais gente veio jogar ténis.
Crítica: o nosso tipo de corpo não dita se somos atléticos ou não, ó palhaço que está aí ao lado a rir da miúda.


O que a foto diz: fui andar de bicicleta.
A verdade: ...mas toda a gente foi a pé.
Crítica: não entupa o trânsito com o seu pretenciosismo de quem quer salvar o planeta a andar de bicicleta.



Cinema

Moonlight

22:35


Uma história dividida em três actos, Moonlight é delicado mas violento; é duro, mas sensível. Mostra-nos um conflito entre crueldade e beleza.

Conta-nos a história de Chiron, um rapaz crescido em Miami, rodeado de violência, filho de uma mãe viciada, que encontra o amparo junto de Juan, um dealer, e a sua companheira Teresa. Os três actos recebem o nome da personagem, nas três fases da sua vida: "Little", como a alcunha que recebe dos outros rapazes durante a infância; "Chiron" no momento da adolescência, seu nome de nascença, no momento dos conflitos de identidade; e por fim "Black", a alcunha que lhe é dada por Kevin, amigo de infância.

Moonlight é uma história universal sobre a descoberta da sexualidade e as consequências do isolamento. Mas reduzir Moonlight a isto é isso mesmo - é reduzir o filme. É também um filme que é para todas as audiências, mas que toca a uma comunidade em específico. É uma representação íntima da descoberta do eu, social e sexual, mas é um eu que insere num contexto específico. Moonlight é uma história de raça e de sexualidade que não pode ser arrancada do filme; negar esse lado é negar todo o filme e a sua mestria.

A história começa com Chiron a fugir de um grupo de rapazes que o aterroriza. Encontra refúgio numa casa abandonada, para onde os rapazes atiram pedras e outros objectos que encontram. Mais tarde, um homem abre entrada atrvés de uma das janelas. Chiron não fala durante todo o serão, se não até ao dia seguinte quando afirma por fim onde vive. Juan, o homem que o acolhe, com Teresa, tentam compreender a criança sisuda e calada. Mais à frente, Kevin, melhor amigo de Chiron, pergunta-lhe porque é que deixa as outras crianças dizerem-lhe o que lhes apetece. Chiron encolhe os ombros. Kevin solta-lhe um empurrão e os dois rebolam numa amigável cena de pancadaria. A câmara foca-se nos detalhes sem nos dar o todo, e por um instante, somos levados a crer que há qualquer tónica de sensualidade a tentar ser transmitida. É antes uma antecipação. Moonlight, contra o que se possa esperar, não é uma história redutora sobre um negro que cresce num ambiente de drogas e violência; é uma história de um negro que se apaixona pelo seu melhor amigo, e a sua luta por essa identidade no meio da violência.



"In the moonlight, black boys are blue."

Moonlight é uma história contada em círculo. No começo do filme, vemos o carro de Juan e o homem que nele se senta - o dealer de drogas que se aproxima do rapazinho introvertido que procura ajudar. Chiron, sensível, bondoso e solitário, resiste ao mundo de violência que o rodeia, em parte com a ajuda de Juan e de Teresa. Mas esse mundo corrompe-o eventualmente; no ponto de viragem do acto segundo para o terceiro, Chiron - que sofre de bullying com o passar dos anos - revolta-se por fim. Espancado pelo melhor amigo, aquele por quem se apaixona, por força do bullying, Chiron exerce a sua vingança no perpetrador do mal. Aí começa o corrompimento do jovem que, no primeiro acto, Juan segura pela cabeça sobre as águas do oceano Altântico - "o centro do mundo" - enquanto o ensina a nadar, um gesto apenas reminiscente de um baptismo; como se renascesse pelas suas mãos. No terceiro acto, Chiron, já adulto, senta-se num carro que é em tudo a réplica do carro de Juan - até ao detalhe da pequena coroa no tablier. Chiron tomou o lugar de Juan - é agora também ele dealer, também ele comete alguns actos de bullying. Mas não são mais do que actos de sobrevivência. Chiron permanece, apesar de tudo, um jovem bondoso e sensível, e o filme não evita mencioná-lo, e deixa-o claro aos nossos olhos. Não só a representação impressionante dos três actores - que não se conheceram até depois das gravações, para que cada um pudesse contribuir com a sua própria interpretação da personagem - como nas próprias cenas. Se no final do primeiro acto vimos a mãe de Chiron gritar algo imperceptível e esconder-se na enorme luz vermelha do seu quarto, no segundo, vemo-la em inverso, saindo dessa luz vermelha, e ouvimos o que grita - "está calado". E por fim, no terceiro acto, assistimos à sua redenção. Se Chiron observa o oceano atlântico debaixo da luz do luar que torna "todos os rapazes negros azuis" - quando entra em casa de Kevin, depois do reencontro, é uma t-shirt azul que o amigo veste. Porque todos os rapazinhos negros são azuis debaixo da luz do luar, e o azul, neste filme, pinta cada cena com a sensibilidade que os actores mostram na representação de Chiron. 

Se, no final do filme, Chiron se tornou na pessoa que sempre se esforçou por evitar - e não se não por circunstâncias que o rodeiam, por esse mundo que acabou por pesar sobre si - ele deixa ainda espaço para quem verdadeiramente é - aquele rapazinho da última cena do filme que, debaixo da luz do luar, observa o oceano atlântico, essa massa de água que é o centro do mundo. Ao contrário, Kevin permanece o mesmo, um antagonista àquele que é o personagem principal. E tal como no final do segundo acto Chiron perdeu as estribeira e deixou a raiva tomar conta de si, agora, é o sentimento de um amor que nutre com o passar dos anos que deixa discorrer sobre o amigo: "És o único homem que me tocou. Nunca mais fui tocado desde então". É uma tragédia que termina com uma espécie de redenção, e que talvez nos dite a esperança de esse rapazinho que é azul debaixo do luar, e a sua inocência e bondade, retornem por fim e dêem lugar ao homem que adoptou a pele de um outro homem.

Moonlight tem uma sensibilidade que se transmite numa cinematografia onde as cores contam as histórias de todos os rapazinhos negros que são azuis debaixo do luar. É um filme que conta uma história universal através de uma outra história que já só diz respeito a uma só comunidade. É uma história de crescimento e descoberta face às limitações do mundo corrompido que impõe uma masculinidade agressiva e violenta sobre um rapaz ternurento, que corrompe esse azul do luar com o ciclo vicioso que o cerca. Mas é uma história que, embora com violência, é ternurenta e delicada.

Música

12:28


Foi com entusiasmo que hoje acordei para a notícia de que Chance the Rapper venceu o Grammy de Best New Artist e, mais impressionante ainda, Best Rap Album, derrotando dois dos gigantes do género, Drake e Kanye West. E isto é importante - e em vários aspectos revolucionário - por uma simples razão: Chance the Rapper é, de momento, o único grande nome do rap norte-americano completamente independente no que toca a grandes labels. Chance não é representado por nenhuma grande editora; há dez anos, aliás, que recusa.

Há quem discuta se ele é assim tão independente, visto o seu meio de divulgação dos seus álbuns ser o iTunes e a Apple Music, e que existe a possibilidade inclusive de haver acordos entre a Apple e o artista independente. Além disso, que é preciso ter-se em consideração que Chance, apesar de independente, receb a atenção de uma empresa avaliada em 700 biliões de dólares. O cantor tem ainda colaborado com vários artistas como Frank Ocean, R. Kelly, Childish Gambino, e muitos mais, facto que leva ainda alguns a debater se lhe valeu ainda a projecção. Debatível, suponho.

Inegável é que o rapper de Chicago mudou o paradigma de como a indústria musical norte-americana controla os seus artistas. Facto é que Chance não tem ainda uma grande label em cima em produção dos seus álbuns, e usa o streaming como divulgação de um trabalho de concilia o rap com o r&b e o gospel em colaborações numerosas. Chance the Rapper está de parabéns pelo prémio em tudo meretório.

Séries

02:00





2001: Odisseia no Espaço e Twilight Zone tiveram um filho: a série da Fox, Legion, uma série retro-futurista sci-fi que me fez esquecer por um momento que é baseada na banda desenhada da Marvel, e pela primeira vez, isso foi bom sinal. 

O primeira episódio apresenta a história de um gajo que ou tem problemas mentais sérios, ou um poder demasiado forte - e eu como já o conheço um bocadinho dos comics posso dizer que é um pouco dos dois. Mas deixou também claro que se vai distanciar desses mesmos comics - óptimo. David Haller é uma personagem que já data dos anos 80, se não anterior (afirmo a dúvida), o que na vida de um personagem da Marvel se traduz para um personagem que já serviu para um pouco de tudo - inclusive criar timelines que o Brian Synger fez questão de arruinar (Apocalypse). Ter a liberdade de reinventar um personagem, ao mesmo tempo que lhe faz jus ao espírito, para mim, é sempre boa ideia. E Legion optou pela estética retro-futurista dos anos 60-70 para contar a história de um dos mutantes mais poderosos e com uma mente demasiado complexa para se traduzir em só mais um franchise.

A série ofereceu-nos no primeiro episódio um psycho-thriller bizarro, sensorial, com uma fotografia potente, uma realização apurada e uma edição de tal maneira refinada que a história, mesmo que se torne básica quando escrita, se torna numa viagem através das imagens, capaz de transmitir uma alucinação, sã ou insana, de uma mente perturbada quer por um poder, quer por uma doença mental (vamos a ver se tenho razão e é um bocadinho dos dois).

Já a aguardava há muito tempo. Finalmene vi. Nada desiludida.

Aguardo o próximo com ansiedade.

Cinema

21:53


Nicholas Sparks, depois de todos os seus livros adaptados ao cinema, depois de gastos todos os plot-twists amorosos, depois de arruinar todos os casais sulistas americanos, matar protagonistas e isolar mulheres com Alzeimar, depois de reutilizar todos os 5 actores brancos de Hollywood (vocês sabem quem são eles) para a mesma narrativa com vinte e três variações diferentes da definição de "amor trágico", renovou-se. Fez um musical. Chama-se La La Land.

O filme passa-se numa realidade que eu reconheço imediatamente que é actual, porque faz lembrar aqueles interiores de barbearias vintage da baixa de Lisboa: é no presente, mas os personagens parecem ter um fetiche inabalável pela década de '50.

Mia trabalha nos estúdios de Hollywood a servir cafés às maiores estrelas das majors, cabisbaixa e soturna por o seu sonho ser ao mesmo tempo inalcançável e tão próximo, abalada pelas suas tentativas falhadas em cumprir o seu sonho. Quer ser actriz, claro. Apesar de ter já tentado uma série de castings, nunca conseguiu, aparentemente, nada. Nem como figurante num anúncio para a diabetes, aparentemente. Sebastian, por seu turno, é um branco que usa sapatos de sapateado dos anos '50 o filme todo, mesmo quando não dá claramente jeito usá-los, e que tem também o seu próprio sonho: salvar o jazz. Ironicamente, o John Legend não acha isto ofensivo, mas dá-lhe a dica de que, se calhar, é melhor tirar a cabecinha do passado e seguir em frente. Sebastian acha que o jazz morreu e decide viver em Los Angeles para o salvar porque, aparentemente, ninguém lhe disse que foi no Lousiana que o jazz nasceu.

Mia e Sebastian conhecem-se então no trânsito, uma troca de olhares e um pirete que tenta ser divertido mas que ditou perfeitamente o nível de humor e previsibilidade para o resto do filme. Os dois voltam a cruzar-se quando Sebastian, pianista num restaurante, é forçado a tocar músicas de Natal pelo mesmo gajo que traumatizou bateristas no Whiplash, mas num laivo de coragem, e porque o seu amor ao jazz é demasiado grande para sucumbir às festividades natalícias, decide borrifar-se para o que o patrão diz e improvisar uma música de sua criação - jazz, caso se estejam a questionar - resultando no seu despedimento. Mia entra no restaurante, atraída pela música, claro, porque o homem mais branco de Los Angeles é o melhor pianista jazz que vão conhecer, e assiste a tudo. Quando por fim se aproxima de Sebastian para o elogiar, o cavalheiro dá-lhe um encontrão com o ombro e manda-se bugiar. Romântico.

Reencontram-se então numa festa onde uma banda está a tocar covers dos anos '80, onde um minuto e meio do Take on Me nos faz esquecer este inferno suburbano-americano apenas por um momento, e Mia, piçada com a situação, pede então à banda que toque o I Ran, supostamente porque dá forte no piano. O pianista é o nosso herói do jazz, caso não tenham percebido e, irritado, Sebastian diz-lhe que é um insulto pedir a um músico a sério que se toque o I Ran. Imaginem como é que os A Flock of Seaguls se sentiram. Foi aqui que fui fazer crepes e me passou uma parte musical que, a revelar pelo resto do filme, foi irrelevante.

Daqui em diante, a melhor forma de entender o filme é seguirmo-nos pela música do Rui Veloso, o Anel de Rubi.

No mix do romance da actriz falhada e do músico branco de jazz, o nosso Vanilla Ice do improviso sugere que ela escreva um guião. Não percebi bem para quê, porque se torna irrelevante o resto do filme visto que ela até no guionismo se torna falhada. Sebastião, vou chamar-lhe assim porque soa à beto, aceita então um emprego como pianista numa banda de John Legend, que para mim é a parte mais estranha de todo este filme. É então que John Legend lhe diz a deixa mais inteligente de todo o filme, e a única coisa que vale a pena, logo a seguir ao próprio John Legend: que ele está fixado no jazz do passado e que convém seguir em frente.

Segue então uma vidinha de tournés do nosso Sebastião enquanto Mia permanece em casa a escrever guiões (acho eu? Fui fazer mais crepes) e a tentar audições falhadas e a actuar em teatros de beco sem nenhum público, e de dona de casa solitária, nos seus vestidinhos de roda e sapatinhos de fivela, que é para não nos esquecermos que este filme tem uma vibe de anos '50, caso o look dos nossos protagonistas não o tenha revelado o suficiente, fica o sexismo subreptício. Dá-se então uma cena em que Mia vai ao concerto da banda de Sebastião. John Legend absolutamente arromba com todo o público, na sua voz excepcional, até que dá a dica de "dá-lhe, teclista" e cai um foco de luz sobre Sebastião. Mia fica meio horrorizada, abalroada pela multidão que se está claramente a cagar para o teclista branco e focadíssimo no John Legend, e afasta-se, a desilusão no seu rosto apenas ofuscada pelas luzes coloridas que, agora, ditam a Mia que ela é ainda mais falhada do que foi até agora - não sou eu que o digo, é o filme.

Os dois separam-se depois de Sebastião faltar à estreia da peça medíocre de Mia onde três pessoas vão assistir e porque Mia não consegue suportar que o Sebastiãozinho ande em tourné enquanto ela não consegue nada da vida, mas no dia a seguir é chamada para um casting que resulta finalmente do seu sucesso. Fast forward cinco anos e Mia é já tão conhecida que toda a gente no exacto café onde ela trabalhava se baba e borra pela sua presença, o que é justificado quando se vê que ela casou com o produtor - tal e qual como no cinema de Hollywood dos anos '50, percebem?

Os dois reencontram-se, agora Sebastião tem um bar de jazz popularusco e desta vez quem é atraído pela música é o marido de Mia, e os dois trocam olhares e viram cabeças da maneira que todos conhecemos porque já vimos pelo menos um filme de Nicholas Sparks. Seguem as suas vidas, Mia sendo a diva que sempre sonhou, Sebastião salvando o jazz, um instrumento de cada vez. E Hollywood branco delira, afirmando que nunca houve nada como este filme. A grande lição é que Mia aprendeu finalmente a gostar de jazz e que Sebastião viu o sketch de Gato Fedorento e aceitou que também é bom "à média e à belga". E pela segunda vez, Damien Chazelle conseguiu não fazer jus à verdadeira origem do jazz, entregando-o às saladas de maionése hollywoodescas como tanto a Academia adora.

O filme tem uma composição, no mínimo, esquisita. Era claro que o realizador tentou misturar a estética dos anos '50 com a actualidade, mas fê-lo de uma forma que transforma a personagem de Ryan Gosling num daqueles pretensiosos que se senta a um canto do Starbucks com uma máquina de escrever, que, de certeza absoluta, frequenta a Fígaro e que acredita que só ele sabe o que é o verdadeiro jazz, porque já ninguém sabe o que é o verdadeiro jazz, nem mesmo o John Legend ou os outros negros profissionais de jazz; e Emma Stone numa sonsinha de vestidos coloridos que se deixa levar pelo estilo de vida, que assume ser deslumbrante, das estrelas de cinema, com as quais se cruza e claramente inveja, sem razões válidas mais que "é o meu sonho". A cinematografia - que nem chega ao trabalho de cor que Mad Max recebeu - não salva o vazio desta história.

E depois há o jazz, aquele que o branquelas do Sebastião quer salvar porque, afirma, está a morrer. O jazz, que tem uma história revolucionária na história afro-americana, um estilo de música que nasceu das caves do Louisiana dos recém-libertados da escravidão e que migrou para Nova Iorque sob a forma dos clubes nocturnos depois da lei de Jim Crow devastar os estados sulistas. Esse jazz. Ryan Gosling quer salvar esse jazz, porque ele está "a morrer".

Vou fazer uma pausa.

No século XIX, um fotógrafo chamado Edward Curtis acreditava que a população nativa americana ia morrer. Tanto assim o cria que criou o projecto "vanishing race", em que se comprometeu a fotografar o máximo possível os nativos americanos nas suas reservas. As suas fotografias representam indígenas americanos em vestimentas "típicas" e em posições frontais, cruas e o mais rígidas possível. Mas Curtis era também conhecido por escolher, em várias ocasiões, que vestimentas deveriam estes indígenas usar e em alteral qualquer indício de modernidade: numa das suas famosas fotografias, eliminou um relógio. A sua tentativa de "salvar" a raça de que estava a desaparecer resultou num aparato caricatural de várias tribos onde, aparentemente, a modernidade não chega porque, para sempre, para Curtis, serão os "nativos", os "indígenas" - e para os nativos-americanos, algo entre uma ofensa e uma piada de mau gosto.

A cena em que Sebastião leva Mia a um bar de jazz para lhe ensinar o que era o "o verdadeiro jazz" (e diz o Rui Veloso: a saliva que eu gastei para te mudar), em que ele toca aí piano e os músicos - afro-americanos do jazz liderados por John Legend - ficam tão impressionados que exigem que Sebastião se junte a eles, fez-me lembrar Edward Curtis. Não porque o homem branco quer tocar jazz, mas porque este homem branco quer salvar um estilo musical com tanta força que o quer fazer ultrapassando, inegenuamente, aqueles pertencentes à comunidade que o representa. Durante todo o filme, Sebastião é tratado como um salvador, ao ponto de a personagem achar que entrar para a respeitável banda de John Legend será "vender-se" - porque ser comercial não faz parte do jazz. Porque este personagem ama tanto um estilo de música que tevem origens na pobreza afro-americana que se recusa a pagar as contas para poder ouvir os seus vinis - estão a ver a ironia?

Voltando a onde estava.

Depois da cena de abertura de uma belíssima dança por um grupo de dançarinos e actores diversificado que estabelecem um certo nível através de um só plano-sequência, não dá para mais nada que não a desilusão. O filme não volta a bater naquele nível inicialmente estabelecido, antes opta por contar uma história visualmente confusa, ainda que com boa cineatografia, sobre um casal onde o conflito central é o de qual deles tem a paixão mais forte. Desenrola-se num enredo previsível com bastantes dos conhecidos clichés e não nos dá muito mais do que números musicais que nem sequer se superam a si próprios. Não são nada demais. As músicas não são nada demais. Não são como I Like to be in America de West Side Story que, transportado para mais de cinquenta anos depois, ainda são actuais, nem sequer tem um Russel Crowe como os Miseráveis para nos deixar meio confusos acerca do que se passa, nem sequer uma Éponine a cantar sobre ir buscar o balde às escadas.

Não é nada de especial. Então como é que conseguiu 14 nomeações - superando o record de nomeações de James Cameron - para Óscar é o que me transcende. Se La La Land fosse só mais um filme de que se fala, era como o outro. Mas este filme incrivelmente mediano conseguiu convencer toda uma classe da Academia de que este, sim, é um dos melhores filmes do ano, enquanto confronta produções poderosas.

Será que é porque o jazz chamou a atenção da elite branca suburbana norte-americana? Hm.

Portanto, o que é o La La Land que não uma reinvenção musical de Crazy Stupid Love?

Fica ainda este sketch que reflecte a minha alma:

Arte

00:16


O Peso das Gerações

Entre 1954 e 1958, Chris Market tornou-se editor da série de livros de viagens Petite Planète, dando-lhe um particular toque político à série que, até então, se caracterizava por atraentes livros de viagens. Chris Marker encarregou-se em particular de fotografar para três edições de três diferentes países: China, União Soviética e Portugal.

Embora diferentes no domínio político, geografia e mesmo cultura, o que une estes três países era o regime então vivido: um regime totalitário. A fotografia acima é da edição de Portugal. Uma fotografia que, como as restantes, aliás, revela o que era então vivido em Portugal: um regime totalitário que compunha uma imagem “para inglês ver”, mas na realidade se pintava de uma extrema pobreza. E como Chris Marker denota nas suas fotografias, particularmente da edição sobre Portugal, a nobreza do nacionalismo é revelada uma máscara do totalitarismo.

Esta fotografia em particular mostra uma mulher velha a meio de uma acção. Não sabemos o que ela está a fazer – se fala, se canta. Mas é uma mulher velha escondida numa semi-escuridão reforçada acima de tudo pelo lenço que lhe cobre a cabeça. É a partir dess aperspectiva que temos de a comparar com a fotografia ao lado: uma criança olhando para a base da estátua do Marquês de Pombal de uma figura masculina que segura com dureza o peso da estátua sobre os seus próprios ombros.

Trata-se de uma representação binomial das gerações. O passado e o presente de então – ou talvez o futuro que o menino vê o homem segurar aos ombros.

Estando eu numa geração ainda mais longínqua que aquelas duas representadas acima, esta fotografia tocou-me profundamente. Passei toda a minha vida a ouvir a minha família falar sobre os dias em que se vivia com medo: de olhos esbugalhados, orelhas trémulas e bocas fechadas. Todo e cada um da minha geração ouviu estas histórias: de como alguém que os nossos pais conheciam foi torturado, de como alguém próximo da família entrou para a clandestinidade depois de ser perseguido. De como a minha tia teve um medo de morte por encontrar um folheto ilegal. De como, por vezes, alguém tinha de dar mão de uma salário inteiro para se manter a si e à sua família em segurança. Como uma só família partilhava uma sardinha. Como não havia dinheiro para sapatos. Como alguém foi morto a tiro pela polícia no meio da rua.

Visitei Berlim em 2008 e aí entrei em contacto mais íntimo com o museu da RFA. A minha mãe, que estava comigo, apontava sempre e informava, num tom que não era tão de dor ou peso quanto, por vezes, a minha geração o espera, mas antes com a força apenas esperada da nostalgia: “Era exactamente assim em Portugal”.

Marianne Hirsch, a partir de uma análise de Maus, a banda desenhada sobre as memórias do pai do autor enquanto judeu aprisionado num campo de concentração, formulou o termo pós-memória. A geração do pós-memória é aquela que experiencia em segunda-mão as memórias e traumas da geração anterior. Aqueles que recordam a experiência compartilhada através das palavras de seus pais, mas de uma forma que é de tal forma vívida que essas passam a ser as nossas experiências. Os traumas são assim transmitidos para uma segunda geração, residindo então nas evidências documentais – fotografias, documentos, textos. Marianne Hirsch chamou à geração do pós-memória os filhos de Auschwitz, mas o conceito é aplicável a outras gerações filhas de traumas de outros eventos mundiais. Acho o termo útil, mas não são os filhos de Auschwitz de Marianne Hirsch a que me referirei daqui em diante.

Lidar com fotografias do passado traz um grande peso para as gerações que herdamos traumas da geração anterior. Sabemos agora o que significam. Não nos limitamos a olhá-las; porque os nossos pais estavam lá, nos mostraram essas imagens e nos contaram as suas histórias, compreendemo-las e sabemos as suas histórias também. Também nós as experienciamos como se tivéssemos estado lá. Respeitamos as memórias dos nossos pais e e sentimo-las como nossas por cada vez que eles mesmo as contam, uma e outra vez.


O menino da fotografia, que olha a estátua, é todas as gerações vindouras após uma grande crise – particularmente humanitária. Quando vi esta fotografia pela primeira vez, entendi-a como a iconografia da geração pós-memória – de todas as gerações pós-memória. Carregamos o peso de um passado que não nos pertence, não porque nos foi imposto – não só – mas porque assim o escolhemos, para lhes honrar a memória, o seu passado, os seus traumas. Ultimamente, acredito que escolhemos olhar para isso da melhor maneira possível, pois afinal, tudo isto é se não uma lição aprendida.

6 de Novembro de 2013

Arte

15:56

Em 1912, Amadeo de Souza Cardoso estava em Paris. Passado um ou dois anos, foi para Espanha. Algures nessa travessia, encontrou os Delaunay – Robert e a sua mulher Sonia. O dois artistas acompanharam-no até Portugal e viveram consigo em Manhufe, e não só, naquele típico consílio artístico de três alminhas na espreguiçadeira de pano debaixo de sol, com a pochade ao lado, mas nada de naturalista. Foi quando o Amadeo começou a incorporar o círculo órfico de Robert – ou mais de Sonia, na verdade. Círculo órfico era o seu nome porque vinha em pandent com o movimento futurista português, com quem Amadeo publicava – Almada, Santa-Rita, Pessoa, às vezes Viana. O círculo órfico era o de orfeu, consoante o orfismo, aquele que estava nas paredes d’A Brasileira. Em 1916, Amadeo deixou de pintar. Uma doença de pele impediu-o de o fazer; em 1918, morreu de gripe espanhola, com 31 anos.

Entranto, já a guerra estalara, e com ela, os Delaunay esquivaram-se de Portugal e regressaram a Paris. Ao mesmo tempo que o faziam, os intelectuais judeus e burgueses exilados escolheram Zurique, particularmente o espacinho que o Hugo Ball alugou e decorou à base de pinturas que pediu de porta em porta e declamações poéticas de amigos. No Cabaret Voltaire, um dia, entraram Picabia, Harp e, mais importante, Tzara.

O dadaísmo durou meses; quando terminou, todos estavam chateados pela mitologia da criação, como acontece com os ismos da arte, geralmente. Tzara partiu para França. Esperava-o, aí, um dadaísmo de tal maneira niilista que ia levar o Breton a puxar os próprios cabelos e a cansar-se de tal forma que cuspiria, assim, na zanga do momento, o surrealismo. O próprio Tzara encontraria aí o Surrealismo, ao qual se dedicaria com bastante mais força. Mas aí, encontrou também os Delaunay. E a certa altura da sua vida, depois que o dadaísmo caiu no poço niilista que o definiu sempre, Tzara escreveu uma obra poética e chamou-a de “Sonia Delaunay”.

Consta que, na ausência de Robert, Sonia foi acusada de espionagem para, creio, os comunistas, a partir de uma carta enviada (ou qualquer coisa) a propósito de um submarino. Esse submarino está numa obra de Amadeo, que a defendeu e se manteve do seu lado até ao fim do caso; e enquanto isso, inseria os seus círculos órficos nos seus quadros, por vezes com pequenos (grandes) insectos em cima destes.

Amadeo pintou os círculos de Sonia; Tzara escreveu a sua obra poética.

Quando eu tinha 18 anos e peguei num livro sobre a performance, li acerca do dadaísmo pela primeira vez. A absoluta descrença em toda a moral que rodeava estes artistas performativos, a falta de compadecência para com um mundo que se matava sem vergonha, e a atitude de se borrifar para as políticas sendo, ao mesmo tempo, bastante político, deixou-me a sentir-me quase em casa. Foi a atitude de Tzara que me cativou, particularmente. Li uma frase sua pela primeira vez que, hoje, é o meu emblema de vivência (reconhecível ao leitor, certamente): “A salada burguesa na sua eterna tigela é sem gosto e eu odeio o senso comum”. A vontade de dominar um cenário caótico para o enfiar mais fundo no caos e apresentá-lo como uma mera desordem reflectiva de um mundo em que vivia – assumindo-se capitão daquele navio que afundava com orgulho – fascinou-me. Tzara, no seu monóculo, numa fotografia em que é empoleirado por Harp e Richter pelas pernas, como três crianças, ou noutra, da autoria de Man Ray, onde uma mulher nua se projecta na parede, embora ele a ignore, ou numa outra onde DADA está escrito orgulhosamente na sua testa – este Tzara tornou-se na figura que mais me inspirou.

No final do meu primeiro ano de faculdade a estudar arte, fui ao Centro de Arte Moderna da Gulbenkian pela primeira vez. No piso de cima, estendiam-se (hoje, não) as obras que definiram o panorama português desde o modernismo à contemporaneidade pós-pop. A primeira parte para onde me dirigi foi a sala do cantinho mais ao fundo, onde os Almadas mais tarde eram dispostos junto de Alvarez e Sarah Affonso.

Vi pela primeira vez um Amadeo ao vivo e tive de me sentar para o observar com atenção durante uns largos minutos. O quadro que contemplava era aquele que ainda hoje considero o meu preferido: não tem título, mas é comummente denominado de C.O.T.Y., devido ao rótulo referente à marca (creio que) de perfumes que aparece num canto. É um tipo de obra que encontramos sempre qualquer coisa nova por cada vez que a olhamos, de tão complexa. Descobri vidro, areia, umas coisas que não percebi. Mais tarde, percebi que se tratavam de gancho de cabelo e uma pulseira. Assim que o vi, achei que se tratava de um elogio à mulher – a forma como a rosa intercepta a zona das virilhas, ou como os espelhos se colocam em triangulação com o peito da mulher, como a janela se abre nas suas costas como se espreitasse um inocente voyeur. Os académicos já sabem que aquilo é sobre a mulher, certo; mas quando olhei para esta obra pela primeira vez, achava que não era apenas sobre a mulher, mas um verdadeiro elogio à mulher. Qualquer coisa acerca da composição rítmica entre as rosas que nascem de um ventre aberto em harmonia perfeita com a paleta de cores, entre o espelho que se abre como um toucador em frente a esta figura universal – sem cabeça – e contrasta com a pulseira caída abaixo – tudo isso me dizia que era um elogio a uma mulher, todas as mulheres – Lucy de Souza Cardoso?; Sonia Delaunay?. Ou talvez fosse de eu ser mulher.

Nunca me tinha interessado pelo Amadeo até esse momento. Li sobre ele e cheguei ao ponto do meu curso em que abordei o modernismo português. Assisti a uma palestra onde foram feitas interpretações incríveis sobre as suas obras. A exposição da Gulbenkian ‘Sob o Signo de Amadeo’ – vi-a algumas dez vezes. Passei a conhecer aquelas obras de cor e passeava por aquela salita pequena com uma verdadeira emoção de proximidade para com este homem que viveu 80 anos nos curtos 31.

O Amadeo viveu mais do que lhe foi permitido. Como se lhe tivessem dado 31 anos apenas porque se sabia, de ante-mão, que iria viver mais do que isso. Lembro-me da professora R. H. S. dizer o seguinte: às vezes, temos de assinalar o mês em que a obra foi pintada para termos uma noção mais nítida da evolução do Amadeo. Ele correu tudo, conheceu tudo: conheceu Picasso, Brâncusi, Modigliani, os Delaunay, Braques. Expôs junto a eles e chegou, até, ao famoso Armory Show de 1913. Expôs desde a Alemanha até Espanha. Caiu no silêncio português assim que a bota de Salazar pisou o terreno, depois do Santa-Rita se achar o melhor pintor futurista de Portugal, enquanto os seus quadros se protegiam do pó debaixo da cama da pobre Lucy de Souza Cardoso.

Nunca, em tempo algum, eu imaginaria que estas duas figuras, Amadeo e Tzara, estariam tão próximas uma da outra, apesar de distantes. Se calhar, foi uma partida cruel do destino um viver muitos mais anos e outro morrer tão novo. Quem o sabe, talvez se viessem a conhecer. Tudo o que nos sobra são os Delaunay entre si e o elogio a Sonia de ambos Tzara e Amadeo. Penso: quase, quase que estes dois homens brilhantes se teriam conhecido; quase que se cruzaram e quem sabe o que daí resultaria!

A verdade é que eram bastante diferentes: o niilismo de Tzara que levou Breton e os restantes surrealistas ao despejo do poeta não era mais do que uma afirmação política anti-guerra; Amadeo era fanático pela guerra, cria-a o futuro do mundo. Tzara aproximava-se do surrealismo; Amadeo aproximava-se do futurismo. A certo ponto, pisaram esse mesmo terreno: Tzara era surrealista, Amadeo explorou o futurismo, mas a velocidade a que vivia, a conjugar com o seu curto tempo de vida, não lhe permitiu que permanecesse aí. O seu interesse excêntrico e eclético levou-o a mudar uma vez mais, e outra, e outra.

Estou aqui, um século depois, a fazer a ponte impossível entre estas duas figuras que são das minhas maiores inspirações. Talvez a ponte seja temporal, como um triângulo que une sem, contudo, unir. Ou eu seja uma ponte teórica, psicológica, metafórica – sei lá. O que sei é que estou a perder o meu tempo num quatro, a ouvir música, a ler livros, a esperar por um dia, um dia qualquer, em que talvez eu entre num café, num bar, num restaurante, numa sala, e encontre a Sonia e o Robert Delaunay da minha geração, para que eles também partam daqui para irem ter com o Tzara da nossa geração enquanto um qualquer Amadeo se safa da morte apenas porque a medicina, graças ao Senhor, evoluiu. Não posso saber onde estão os Delaunay, os Tzara, os Amadeos, Bretons, Harps, Richters, etc, da nossa geração. Devem estar todos como eu: fechados num espaço, à espera que qualquer coisa aconteça, que a pessoa certa esteja ali à espera e que essa pessoa seja uma espécie de musa que lhe vai ligar um botão de inspiração e definir uma qualquer veia artística – ou outra coisa qualquer.

16 de Julho de 2014

abstracções

Abstracção #6

01:30

Quando era criança, passava-se muito por uma criaturinha selvagem impossível de domar. E para os pais, a palavra era precisamente essa: selvagem. Não havia método de os professores a conseguirem chamar à atenção porque ela não conseguia ver as suas acções como erros. Talvez tenha sido mesmo livre, pois toda a criança o é quando nasce, mas apertam-se-lhe em volta as grilhetas da sociedade, que é como quem diz, é moldada num triângulo, o seu lado extra cortado assim rapidamente, para doer menos, e mais importante do que isso, antes que se aperceba, de tal modo que nem dor sente, e enfiada naquele espacinho quadrangular de onde se espera que caiba, tamanho perfeito, lados iguais, ranhuras à medida, tudo medido e contado consoante os parâmetros societais.
Mas de alguma forma, ela lá se escapara, e contrário à esperança de uma criança que cresce e evolui como ser integrante de um colectivo, ainda que lhe queiram chamar de autónomo, pois de autónomo não tem nada, que lhe dão logo adubo para as raízes crescerem e se expandirem pelo solo até se agarrarem aos outros e a transformarem – e a todas as crianças – em adultos dependentes; de alguma forma, ela escapava-se sempre a isto e por cada vez que um lado lhe era cortado, nasciam-lhe outros dois.
Às tantas os lados perderem-se-lhe nas contas, e por alturas da adolescência já era um hexágono. Os pais davam em doidos, como aliás daria qualquer pessoa consciente da necessidade de integração. O pior era na escola. Já nem cabia na carteira que era, também ela, como se esperaria, feita à medida de quadrados. Até as roupas se transformaram nessa lembrança do pesadelo que era ver-se a filha a sair dos conformes. Também as roupas eram talhadas à medida para quadrados e não para outras formas, embora existisse sempre uma secção infantil que se baseava mais em triângulos, mas as crianças mesmo pequenas, essas, ainda em fase de mamar e berrar e cuspir a comida toda depois de a comer, não eram quadrados porque ainda eram moldes de barru cru à espera das milhares de mãos que lhes apertariam os contornos e os empurrariam para aquela aberturazinha quadrada por onde teriam de se espremer.
Mas não esta criança. Com três anos apenas, já com as pernas gordas o suficiente e os pés firmes do andar já muito praticado, ganhou gosto por correr. Não andava, só corria. Os pais não a podiam levar ao parque, tudo o que fazia era correr às voltas e às voltas e às voltas e às voltas dos baloiços, dos escorregas, dos castelos de índios, das cordas de trepar. Ocasionalmente, lá trepava a corda ou subia para os escadotes dos escorregas ou das casas de madeira, mas atirava-se muito depressa e continuava a correr. Nunca se cansava. A energia não se esgotava. Corria e corria e corria e, pelo final do dia, sentava-se à mesa do jantar depois de muitos gritos dos pais, comia calmamente e levantava-se para correr mais. Às nove e meia da noite, dormia. Doze horas certas, sempre doze horas certíssimas.
Com cinco anos, aprendeu a apreciar o risco das alturas, a mesma sensação de adrenalina que lhe dava aquela excitação entre a vida e a morte, como se pôde avaliar na forma como as unhas raspavam o betão e as pernas abanavam para sentir o parapeito debaixo delas sempre que um súbito aborrecimento lhe tomava conta da mente. Descobrira a sensação de deleite ao trepar um banco para esticar os bracinhos ainda curtos e abrir um armário onde ela sabia estarem escondidos frascos e fracos de doces, goluseimas, bolachas. O banco abanou, ela quase caiu, mas o terror súbito veio-lhe quando abre a portinhola do armário e um frasco balança e cai de razia junto ao seu rosto, chegou mesmo a sentir o frio do vidro, espatifando-se no chão. Os pais acorrerem ao estranho incidente, assustados, evidentemente, mas mais pelo som de algo a cair e espatifar-se daquela forma, pensando com naturalidade, o que terá causado aquilo, assombrada é que esta casa não está, e percebendo depois, oh meu deus, foi a miúda, e lá correram a pensar, pronto, magoou-se e não tarda está-me para aqui a chorar. Mas não. Encontraram-na empoleirada no banquinho (que era mais bancão para a criança curta que ainda era) a olhar atentamente para o vidro espatifado. Já esticava um pézinho na direcção do chão para saltar do banco, mas vendo que ela estava descalça, os pais lançaram-se logo à pequena e arrancaram-na dali. O que a pequena sentira, contudo, fora um curto segmento de vida extremamente excitante do momento em que aquele frasco de vidro lhe rasara o rosto e se espatifara no chão. Pensava na possibilidade de o frasco lhe ter acertado em cheio na cabeça. Era grande, muito grande para ela, ainda pequena, de vidro grosso e uma armação de metal que funcionava como fecho da tampa. No chão, espalhavam-se os cacos como estalagmites, como blocos de granito caído, espatifadíssimo, misturado por entre bolachas de chocolate de pepitas, agora estragadas.
A sensação nunca desapareceria, aliás, seria a que mais prazer no seu viver lhe daria, até que a respiração lhe cessasse e lá fosse ela também a misturar-se com a história, a rebolar na terra de larvas e a ser comida pelo chão que pisava. Durante anos da infância que se revelou um verdadeiro terror para os pais, na constante amargura de ver a menina enfiada em traquinices que podiam transformar-se em verdadeiras chatices trágicas se não tivesse cuidado. Trepava todas as árvores e tornou-se ágil o bastante para se escapulir dos pais e fazê-lo até no escuro. Lá conseguia enrolar-se nos troncos e escalá-los com habilidade, e deixava-se ficar lá em cima, pendurada e agarrada aos ramos, a ver as coisas pequeninas abaixo dos seus pés e abanando as pernas quando se sentia aborrecida na esperança de recuperar aquela sensação do momento emq ue o frasco de vidro lhe resvalara o rosto. Caiu uma vez. Partiu o braço. Andou com ele ao peito por tanto tempo que acabou por se esquecer de trepar árvores, além de que os pais passaram a manter olho vigilante na menina, não fosse armar mais alguma até de braço ao peito. Mas coisas para trepar haviam-nas e muitas. Subiu aos móveis, aos sofás, à mesa da sala de jantar, de sapatos e tudo. Saltitava sobre as secretárias da escola nos intervalos do almoço, quando ninguém via. Subia escadas, terraços, varandas e empoleirava-se em todos eles quanto maior fosse a altura. Pequena espreitava através dos muros e paredes, janelas e parapeitos, e observava as coisas pequenas lá em baixo. Se se inclinava, lá vinha aquele formigueiro do perigo a fazê-la sentir-se viva; se estendia os dois braços para a frente, uma vez que ambos os braços se mostraram operacionáveis, tornava a senti-lo, o fervilhar debaixo da pele de excitação.
Outras vezes ainda, agarrava qualquer coisa que gostava muito, como o seu brinquedo preferido, e estendia a mão a segurá-lo. Sentindo-se na iminência dos dedos fraquejarem e largarem o brinquedo lá para baixo, deixava-se encher de um maior desafio, o maior até então: era ela contra ela própria, a testar a sua própria força e persistência, a lutar por aquele maldito brinquedo que não haveria de cair lá para baixo nem que a vaca tossisse, que era logo o seu preferido. Mas era por isso que escolhia sempre o preferido, para sentir o risco ainda mais intensamente, para viver mais de perto o horror da possibilidade de largar aquele brinquedo, para sentir o braço durido mas resistindo, cada vez mais, enquanto ela lá mordia o lábio quando não praguejava para si própria e debitava entredentes, ai de ti, ai de ti que o deixes cair!
Embora esta fosse uma excitação sua que permaneceria por toda a vida, ela foi atenuando com o crescimento para dar lugar a outras coisas, umas típicas e banais de crianças adolescente, particularmente de rapariga, que cresce nessa piscina de hormonas e nada a esbracejar-se em desespero para não se afogar, mas tão recorrente no mundo de triângulos que para aqui não interessará. Interessará o que fez de si as diversas formas que adoptou ao longo do crescimento, e aicma de tudo, como chegou à forma final do seu agora companheiro de vivência, seja lá o que ele na realidade for, proclamou ser um círculo.
Aos doze anos descobriu nova paixão que suscitou de um grande aborrecimento banal esse de jovenzinha a amadurecer que é o desagrado por todas as roupas que encontra nas lojas. Achava-as iguais, os mesmo padrões, os mesmos tecidos, as mesmas formas, as mesmas frases pirosas e carregadas de brilhantes, as mesmas palavras vorazes de significados javardos para miúdas, as mesmas alusões a coisas que ela ainda não estava propriamente formatada para entender, mas que anos mais tarde se provariam certas, sempre a mesma coisa, a mesma paleta de cores, as mesmas conjugações, as mesas as mesmas e as mesmas. E ela cansou-se. Mas isto não lhe perturbou muito, pois entendendo que permanecera triângulo apesar de tudo, a então menina tomou pelas próprias mãos a solução daquele problema e grande chatice. Ora por esta altura, os pais lá se deixaram de preocupar com as taras e manias da agora pré-adolescente e aceitaram que ela era diferente, à sua maneira, sim, talvez fosse essa a palavra, diferente, diferente num status quo colectivo de uniformidade, diga-se homogeneidade, mas que a aceitação do estatuto de extrema diferença, dirão as más-linguas aberração, não prescinda da equação de amor pela filha, que filha é filha, diferente ou não.
Assim, contrariada, ela agarrou nos seus próprios instrumentos de costura e decidiu ser modista. Não decidiu ser modista porque a profissão lhe fosse agradável, um sonho, um objectivo a alcançar na vida, uma coisa que visionava como um futuro brilhante, um sonho, uma ambição, mas porque nada nas malditas lojas de roupa lhe agradava e decidiu resolver ela aquele problema. Com doze primaveras, decidiu criar o seu próprio tipo de roupa, se ir tão longe fosse necessário, e pensou para si mesma: vou fazer roupas para quadrados, hexágonos, octógonos, losângos! Para todas as formas que não triângulos. Não foi apenas uma passagem na sua vida, foi uma coisa que se demonstrou duradoira. Conquanto que não viesse a vestir unicamente roupas fabricadas por si, momentos lá haveria em que seria capaz de encontrar uma peça ou outra que lhe coubesse, talvez lá teria de as adulterar, mas nada demais – e sempre chega a um ponto em que até as mais diversificadas formas aprendem a misturar-se com os restantes – de maneira que tempos deocrriam em que não fabricava nada.
Mas poderia dizer-se que se tratava de uma rapariguinha adolescente com o seu quê de criatividade. De facto, tinha uma cabeça que corria mais depressa do que ela era capaz e via-se extenuada constantemente de a tentar acompanhar. Apaixonava-se intensamente várias vezes por semanas, fosse por pessoas, fosse por objectos, fosse por actividades, e chegava a deixar essas paixões consumirem-lhe o pensamento, o seu, acrescentar-lhe ou cortar-lhe um lado, fosse que influência fosse aquela que acabaria por receber. Na era do digital, ainda usava máquina fotográfica analógica, com essa chatice eterna que é a do rolo, apenas pelo prazer nostálgico de segurar as fotografias impressas em papel brilhante, sujá-las de dedadas e guardá-las dentro de um álbum velho de páginas amareladas que requeriam que as fotografias se colassem. As fotografias, essas, podiam ser de tudo – não era apenas ela e amigos e família e eventos – aliás, raramente o era. Porque essas coisas, e pessoas, as via diariamente, preocupava-se mais em guardar uma recordação apenas de cada momento significativo das suas vidas. Quando um amigo pintava o cabelo, fotografava-o para guardar aquela evidência ao lado da outra, da do passado, e poder pôr em comparação. O mesmo se fazia um piercing, engravidava, engordava ou emagracia, ia de férias e voltava bronzeado, fazia uma tatuagem, casava-se. Todas essas fotografias, cronologias imagéticas dos outros, daqueles que lhe acompanhavam a vida, estavam guardadas num álbum à parte, guardado numa prateleira bem alta, para que lhe custasse aceder, que olhá-las demasiado seria habituar-se à mudança deles, tornar-se-ia familiar, e isso deixava de lhe atribuir um certo factor surpresa, que lhe sabia de forma semelhante àquele momento em que o frasco de vidro lhe rasou o rosto e se espatifou no chão, ainda em pequena.
E claro: fazia o mesmo consigo própria. O hábito veio dos pais, que, como manda a tradição de pai orgulhoso, lá a fotografaram no seu primeiro fato de carnaval, a dar os seus primeiros passos, a comer a primeira papa, a cortar o primeiro bife, a brincar com o primeiro brinquedo, a vestir a primeira bata da escola, a andar no primeiro triciclo, a pedalar a primeira bicicleta, a exibir o primeiro gesso enrolado no braço com as primeiras assinaturas, a calçar o primeiro par de sapatos de saltos altos. Todas estas coisas, e muitíssimas mais, como se deverá calcular, dificílimas de evocar em completo neste momento, encontram-se registadas num álbum de capa grossa e rija, coberto numa imitação de couro castanho, onde se perfilam os anos da sua existência com base nos contrastes. Mas entre esses eventos, nos espaços e intervalos da sua existência além deles, nada existe. De cada evento, existe uma fotografia apenas; nenhuma peça de vestuário se repete, salvo um camisolão verde com peixinhos azuis que lá usara na primeira festa de anos com amigos e também na primeira vez que pedalou a bicicleta, um lapso, um erro, mas que os pais prontamente se certificaram de que não tornaria a acontecer. Por cada evento, havia apenas uma fotografia, regra de ouro e importantíssima, aliás, a mais rigidamente a ser seguida, caso contrário, estragaria desde logo toda a mágica do princípio. Não convinha que se escolhesse por entre milhares de fotografias; desacreditava fortemente nessa ideia de fotografar duzentas e trinta e três vezes um só evento para depois poder escolher uma só e exibir aos amigos com orgulho. Preferia ter uma e apreciá-la intimamente, era aquela, era a única, era muitíssimo mais susceptível de amor seu e apreciação e era melhor que as coisas se mantivessem assim. Muito por onde escolher confunde, e já a mãe lhe dizia quando a encontrava a escolher roupa junto ao armário ou a costurar as suas próprias roupas, tivesse uma só peça e não te queixavas!

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Abstracção #5

01:28

Acordou no mesmo lugar, ainda sem as roupas mas sozinha. Se foi um sonho, nunca o saberemos. Se foi uma recordação, também nunca o saberemos. Poderia ter-se levantado a meio do sono para se dirigir até àquelas águas furtadas e deixar transpirar a luxúria para o corpo de outro. Poderia tê-lo conhecido antes, muito antes, por muitos anos, ou poderiam nunca se ter visto na vida e toda aquela história de amores e fantasias não era mais do que parte do delírio. Nada disso importa, porque o presente e o actual é o que conta. Porque esta é uma mulher sem passado nem futuro, apenas presente, que se quer libertar das suas grilhetas, sejam elas as roupas, seja ela a carne.
Estava ali sozinha. Da casa, emanava um aroma a qualquer coisa frita e um fresco vento que provinha da rua. Vestiu-se descontraidamente, como se sempre se tivesse encontrado nua em toda a sua vida mas tivesse subitamente frio. E tinha. Esquecera-se de que se encontrava num local húmido. Esquecera-se de tanta cosia que, por vezes, o presente ia de arrasto. Tudo isto lhe parecia natural; não queria atrever-se a decifrar as complexidades da mente, fossem reflexos de defesa, fossem induções de negação, fossem flexões de existência. Tudo isso era mais grilhetas, isso de se viver preso a interpretações. Mais valia que se vivesse no desconhecido. Como ele lho dissera, ela era inédita – e que tudo fosse inédito. A espera conduz apenas ao desespero e à ânsia. Por vezes, à desilusão. Poder-se-á que está imune. Nada a poderá desiludir.

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Abstracção #4

01:26

Do outro lado da estrada, estava um homem que conhecia e que se dirigia até ela. Sorria em disposição plena da sua recpção, mas como sempre, existia-lhe no olhar umamelancolia adjacente, breve e ríspida, um bilho rápido de que relampeja no desejo, talvez, de ser encontrado. Ela vira-lho sempre, mas só mais tarde concluiria de que se tratava sem, contudo, saber em conclusão plena.
Aquele já era outro lugar – ou fora, ou ainda era, ou talvez nunca tivesse sido o espectro da imaginação transformava-a numa panóplia de delírios agradáveis. Sim, aquele pelo menos era agradável. Estava ali, de pé, num terreno arenoso onde algumas construções se erguiam atrás de si. Não se atrevia a voltar as costas para as olhar, se não estivessem ali, isso significava que afinal imaginava ou o lugar era, afinal, outro, e não se podia permitir a fazer essa desfeita. Viveria na ilusão se tivesse de ser
Cheira a terra molhada mesmo que não houvesse ali terra. E à borracha dos pneus que giravam sobre o pavimento húmido. E a comdia grelhada e condimentada que provinha de um restaurante ali perto. Ele aproximou-se, ainda a sorrir nas mesmas condições e preceitos que anteriormente lhe denotara, parou e cumprimentou-a com toda acordialidade que distância que não tinham se impunha quando o afastamento recente ditava a necessidade de ser relembrada para que ele permanecesse ali, como uma barreira entre ambos.
Não tinham nada para falar, mas falavam de tudo, que era eles próprios. Caminhando pelas ruas, disfarçaram o vazio que ambos eram ao falar apenas de si, ao cuspir apenas aquilo que tinham dentro de si próprios porque nada mais existia em torno de ambos. Caminharam por entre as palavras que se misturava com as dos outros, ainda que pouca gente houvesse na rua. Os casais vazios, comprometidos ou não, vivem assim, da ilusão projectada de que tudo é delicioso quando nada existe nas suas palavras que não provenha de si mesmos. Ambos cuspiam o ego numa batalha de rendição, mas ninguém se rendia. Ninguém questionava ninguém. Nenhum deles colocava qualquer pergunta que interessasse a respeito do outro. Esperava que terminassa para induzir uma frase começada por pois eu e prosseguir com a espadada de egos infatuados.
Ainda assim, riam. Porque a mentira é melhor que a verdade, e a verdade, essa, nenhum deles a via porque estavam presos na ilusão. Caminhando e falando, também riam, para acompanhar os passos e adocicar a mentira para que se apresentasse ainda mais como verdade que não era. Uma droga que agravava o delírio. Sabia-lhes bem e havia ressaca no organismo quando ela terminava.
Que espécie de distância existe, pensava. Que falta esta de explicação! Alguém lhe dissera: amar é quando não consegues explicar os sentimentos. Não as havia, de facto, as não os havendo, também não existia qualquer espécie de conversor oficial desse sentimentalismo para o que oficialmente sentia em si por fim a compreendê-lo. Nada. Confusão, vazio, desejo, delírio. Mas aquele muro não estava ali para separar. Vivia separados, viviam distantes, ao cuspirem apenas histórias acerca de si próprios, apenas a confrontarem-se com os próprios egos, mas em vez de permitirem que aquele muro os impedisse de se verem, empoleiravam-se no  parapeito e espreitavam-se. Talvez lhes escapasse um beijo ocasionalmente; em breve, seria isso mesmo.
As ruas desertificaram rapidamente. Não era para mais. Numa ilusão, os extras desaparecem; o delírio passa a borracha em tudo aquilo que está a mais, se for preciso ainda acrescenta um adorno ou dois para agradar mais à mente. A mente a viver na mentira, mergulha num banho de ácido delírio. Quando terminar, o corpo ressacará; mas até lá, tem de existir o beijo e a carne para então vir o confrontar da mentira, o silêncio entre ambos que dirá: não somos nada, não temos nada, vou-me esconder neste muro e tu farás o mesmo, nunca mais nos veremos.
Uma porta abriu-se subitamente e já não havia nada de desagradável, apenas a perpetuação do delírio. O espaço era pequeno e abafado, como convinha. Um sofá de tecido meio rasgado, comprido, largo o suficiente, de cor verde escura. O chão de madeira rangia, aquilo era umas águas-furtadas, ali estava o tecto coberto de vigas de madeira a descer em duas empenas sobre as suas cabeças numa claustrofobia que teria de ser pagada com a carne e o mergulhar da mente no delírio. As roupas caíram no chão em mergulho esperado, entravam também no devaneio e caíam num sargaço constante e instável. Agora, estavam perdidos. Por então, o muro desaparecera. Alguém o galgara. Quando chegassem ao fim, lá concluiriam qual delesteria sido. Por agora, era apenas o mruo que desaparecia de debaixo dos corpos empinados para se verem.
Os corpos que agora estavam nus acariciavam-se e ondulavam sobre aquele sofá roto. Um sofá roto é sempre uma coisa bela num espaço de madeira bafiento onde se ouver térmitas a remoer a madeira. Com corpos nus, a beleza passa a existir, porque o nu embeleza o interior bolorento, até depressivo, escuro, sorumbático, como um rosto em tristeza permanente, de boca recurvada à buldogue. Os corpos nus são a luz que aquele lugar tem enquanto lá fora cai a noite. Só um candeeiro está aceso, próximo de ambos. Através da pequena janela redonda – que coisa estranha – vêem o mar de luzes da cidade, cor-de-laranja, amarelas, vermelhas a piscar, intermitentemente azuis e amarelas. Não havia estrelas no céu, apenas um risoc miserável de lua que era da cor daqueles corpos. Moviam-se em ondulação consagrada ao ritmo cambaleante daquele ofgear uníssono. De amor, não tinha nada, porque talvez o conseguissem descrever. O que tinha era desespero. Agora, achavam que tinham sido ambos a saltar o muro e cada um acreditava viver do outro lado; delirantes, delirantes.
A droga sempre passa,d eixa o corpo sacudido em ressaca. Ainda há tempo para se prepararem antes dela chegar. Ao pôr um termo à ondulação da pele e o unificar sangrento da carne, param para respirar e sentirem agora o sabor do suor que lhes escorre os poros, como seiva de rosas que transborda o derradeiro aroma em prenúncio de qualquer tragédia. A tragédia a consciência que aí há-de vir. Por enquanto, deleitam-se nas sobras do pecado de se renderem daquela forma a uma falsidade colossal. A ilusão lá vai desaparecendo a pouco e pouco. Aqueles corpos nus já não embelezam o interior. Em breve, haverá mesmo nojo. Não quererão saber mais um do outro, quererão apenas enfiar as roupas e despedirem-se, ansiando por um duche que lhes lavará a luxúria para longe da pele, ela será puta e ele será cabrão, assim no maior vernáculo que ao desesperado ocorre. Por enquanto, são amantes romantizados sob uma luz amarela de um candeeiro, num sofá verde roto, dentro de umas águas furtadas onde, se não haverá baratas, haverão ratos, onde os seus corpos nus transmitem beleza ao que naturalmente causaria, de outra forma, horror.
Já se afastaram. Agora, cada um deles está sentado longe do outro, de cabelo a pingar já do banho tomado. Não sentem nada na pele, qualquer formigueiro de excitação fora abandonado, fosse de que forma fosse. A água lava as impurezas, devolve a dignidade aos pecadores, é benta até no cano, se o beatificado quiser a redenção dela, esteja onde estiver. Nasce o sol, acende as luzes matinais num céu incandescente, e ao mesmo tempo, precisamente – mas sem o saber, nunca o saberão – pensão: tivémos um dia a união da mente mas ela foi estragada com a carne. E era verdade. Sabiam isso como regra. Em tempos, haviam sido unos, um só em espírito. Mas cederam à tentação, quebraram a barreira do espírito e penetraram na carne. E o muro erguera-se. E aquelas águas-furtadas seriam para sempre um escape de sexo, apenas essa banalidade desprezível. Ainda que quisessem mais do que isso, estavam condenados. Era inexplicável. Geralmente o amor o é.

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Abstracção #3

01:24

Desceram quando os copos de vinho terminaram. O interior do quarto ainda era de tons de verde e amarelos, mas já não havia mistério. Sempre o haviam sido, mesmo para ela, que ali entrava pela primeira vez. Tinha a sensação, contudo, que sempre vivera ali. Até conseguia ver as memórias a pairarem-lhe no espírito como projecções imagéticas de um passado inegável – era, afinal, um passado inegável – era o outro passado que era negável, não este, imaginário. Um grupo de pessoas, ali, sentados naquela carpete avermelhada, a fumar e a beber. A conversar por entre risos e a rir por entre conversas. As imagens distorcidas, rodopiando, luzes vivazes, um colorido inebriante, tinham mascado cogumelos e sentiam-se felizes, para sempre felizes, uma eternidade finita, mas plena de felicidade. Aí, os corpos eram mais do que veículos, eram autênticos instrumentos de manobra, um dom que podiam manejar e controlar de acordo com as suas únicas expectativas e desejos. Estavam sem roupas, porque essas eram as verdadeiras grilhetas, as correntes que lhes prendiam a metafísica à existência soberba do espírito. Arrancavam-nas por entre risos e cogumelos que mascavam. Eram livres no círculo que abriam dentro do quadrado, mas cada um era uma forma diferente. Todos eram polígonos.
Agora, via essas memórias que não eram suas, mas cria-as. Talvez lhe tivessem sido contadas no passado e ela apropriara-se das suas imagens em jeito de desespero de adaptação, inconsciente. Decidiram-se a dormir juntos, na mesma cama, porque duas carcaças não comprometiam a existência havia muito unida entre si da mente, do espírito. O corpo que agisse como quisesse e bem entendesse, desde que o espírito continuasse a encabeçar.
Deitaram-se a meia-luz. Uma meia-luz que atravessava as janelas, ainda amarela, ainda torrada e sumida, com um quê de melancólico. De braços debaixo da nuca, ela pensou que uma luz melancólica era tão certa quanto um rosto melancólico, que as mágoas da vida se espirram dos olhos para fora, da boca para fora – da carcaça para fora – e se projectam nas coisas existentes, colavam-se às suas formas gerais e distorciam-nas, transformavam-nas em outras coisas completamente diferentes. Aquela luz era melancólica mesmo depois de piscar os olhos uma quantidade de vezes. Continuava a ser melancólica.
Nenhum deles dormia, permaneciam assim, deitados e em silêncio. Estavam sem roupas porque se libertaram das últimas raízes, acima de tudo as dela, e a carcaça também necessita a libertação para a sua existência plena independente do espírito, talvez ainda submetida a ele, que convinha não perder as estribeiras dos membros. Permaneceram em silêncio por muito tempo. O silêncio não era incómodo, era um espaço onde não havia a necessidade de palavras, falava por si sem dizer absolutamente nada. Ou antes, não falava de todo, permanecia assim. A ausência de sons, por vezes, era boa, mas aquela ausência apenas trazia ao de cima outros sons, e eram esses sons que procuravam. Átomos dispersos de outras existências. A certeza de que não estavam sozinhos. 
Corpos eram corpos, afinal, eos seus cortnos, o que os definia, estava para lá do alcance de cada um deles. Prenderem-se à carne era tão desagradável como prenderem-se às caixas de coisas do passado corroídas e meio comidas por ratos, esquecidas na varanda. O homem do topo da montanha que o dissesse, ele próprio se libertara do corpo antes de a descer. Agora permaneciam assim, deitados e despidos, sem qualquer tentação. Não estavam nus – nu era uma palavra demasiado estática, evidente, directa até. Mas havia nela mais intimidade do que parecia, aliás, a nudez, para ambos, ia além da pele, dos ossos, dos músculos, do sangue, das veias, dos tecidos de gordura que os enchia. A nudez já havia muito que tiha sido exposta quando decidiram abrir as mentes ao invés do corpo, de despir preconceitos ao invés das roupas. As roupas vieram depois. Agora, caíam no chão como as grilhetas abandonadas do escravo fugido – libertados de si próprios. Não tinham forma. Não eram nem quadrados nem triângulos, eram forma etéreas, talvez fumo que pairava no ar, talvez duas nuvens, talvez apenas meros espectros, que o decidissem. Talvez até nada.
Ela adormeceu primeiro. Sonhou com uma sala escura, vazia, onde apenas uma ténue, ténue luz avermelhada espreitava através de janelas. Era oblonga, disforme, com um quadro branco ao centro. Filas de mesas brancas riscadas no tampo alinhavam-se no seu comprimento. Atrás, ficavam as janelas, de persianas semicerradas e aquela luz vermelha a espreitar através delas a emitir uma sensibilidade terrorífica, mesmo para si própria. Sentada à mesa, ela sentiu o frio do metal e do toque da madeira. Percebeu que estava nua – sim, pois agora era nudez, não era apenas um corpo despido, livre, pelo contrário, era algo mais – ali estava ela, nua, e ao mesmo tempo, presa na sua própria pele. A porta estava fechada, teve a certeza de que estava trancada sem saber como. No meio daluz, emergindo através dos raiares avermelhados, veio um rosto disforme, oblongo e de nariz adunco, dentes compridos, muito compridos, tinha um sorriso assustador por causa daqueles dentes demasiado grandes, roçavam o lábio debaixo mesmo de boca aberta, eram enormes e afiados, como garras, e brancos, muito brancos, como se quisessem raiar mesmo no escuro. Ria com malícia, por que razão fosse. E ela, nua encollheu-se porque estava nua e aquilo era horrível, porque estava para lá de nua, estava exposta, completamente exposta. À sua frente, por entre os dois braços estendidos sobre a carteira branca, estava um pedaço de papel. Não, não era um pedaço de papel, era uma carta, uma carta que reconheceu porque era a que escrevera ela própria. Mas desta vez, sabia, porque sempre se sabe o que não é contado directamente nos sonhos, a mente antecipa-se sempre, o que está para acontecer; ela sabia que a carta fora escrita para ela – por si própria? Sim, era isso, mas outra ela, talvez – quem?, a que ficara para trás, era isso. Abriu-a. Leu-a. Deu por si a chorar como reacção inédita mas esperada, quase química, porque as palavras tinham sido escritas para que chorasse. Diziam muita coisa, mas diziam também: estás pendurada numa ponte, abaixo está o rio, estás a cair, a cair, a cair, e não consegues parar, vais morrer, vais morrer afogada, partirás o pescoço a meio da queda, torcerás os ossos das pernas, morrerás afogada, paralisada, incapaz de morrer; penduraste-te na ponte e escorregaste, querias morrer e desististe, caíste, vais morrer, estás a cair, a cair, a cair. E à frente, aquele rosto ria, com aqueles dentes enormes, enormíssimos, gigantes, a rasgarem a pele do próprio lábio logo abaixo deles, a roçá-los com brutalidade, o sangue a escorrer da boca, e lentamente a esconder-se nas sombras enquanto o vermelho que trespassava as persinas pairava no ar.
Teve a sensação de que acordara muito tempo depois daquele rosto desaparecer e fechar a carta. Enquanto isso, sentia-se de facto cair, cair eternamente em qualquer coisa, mas não sabia se era a água do rio para onde se atirava ou não. Acordou no impacto. O corpo provocou um espasmo intenso que o despertou a ele também, dormindo a uma distância de um palmo dela, conseguia até sentir-lhe  respiração. E subitamente, estar ali sem as suas roupas parecia assustador, sentia-se exposta demasiado, atormentada pelo próprio corpor que lhe era prisão. Mas essa sensação em breve passaria. Por enquanto, apertava as mantas junto ao pescoço e entalava-as debaixo dos braços, olhando-o atentamente, de olhos muito abertos e a ofegar. E ele podia ver pelo rosto qualquer pânico, desavença da sua cabeça, qualquer desconforto que o sono lhe produzira.
Como se conheceram não interessa, facto é que o foi de dentro para fora e por meio de palavras que falvam mais do que aquele significado estrito que os dicionários dizem acarretar. A ligação do espírito nascera então, sem o corpo a perturbar. E quanto se viram pela primeira vez, nada interferira, não mais do que o que teriam esperado, dominados na mente, no espírito, treinados nas suas formas usuais.
Mas agora, ela acercava-se de uma estranha e súbita tristeza que lhe nascia de dentro, talvez provinda daquele inexplicável sonho. Era uma tristeza que simbolizava uma ausência de algo, e talvez tivesse a ver com qualquer coisa que deixara para trás, mas que agora não se lembrava. Era profunda. Rasgava um abismo dentro de si, através da gordura do corpo, através dos músculos, através da própria pele. Abria-se e sugava-a com força e ela deixava-se dominar porque não a entendia. Esquecia-se que, por muito que o suprimisse na consciência, ainda que se sentasse à beira de parapeitos a abanar as pernas, sentindo a adrenalina a correr-lhe o corpo em sinal de desejo súbito de viver, de noite, era dominada pelo subconsciente, e esse vinha sempre ao de cima, despertava de um lago adormecido, exibindo os dentes arreganhados e apresentando-lhe as verdades que deixava para trás. Dizia-lhe: não me esqueci, finges que te esqueceste, mas não me esqueci. A mentira deixava de ser mentira, era agora uma verdade, mas assim que os olhos abriam, a realidade desaparecia e aquele medo não tinha justificação, não compreendia as imagens nem tão pouco entendia o simbolismo daquele sonho, muito menos que maldita carta era aquela e porque lhe falava de pontes e de morte.
Com a tristeza vem sempre um fio condutor de uma série de sentimentos, bipolares e disformes, sem sentido que se possa ter por lógico, mas não terão de o ser, cada um será como é e de si nasce apenas o que lhe é natural e se permite a si mesmo a sentir. Dela, veio uma subsquente raiva, enquanto fixava o olhar nele, que lhe levava uma mão ao rosto enquanto lhe perguntava o que se passava. O sonho certamente que fora violento. Via-se-lhe no rosto, nas sobrancelhas arqueadas, os olhos ainda esbugalhados, os lábios separados, arquejando, arquejando, soltando pequenos gemidos de susto aqui e ali. Não lhe respondia porque procurava desfazer tudo aquilo na sua mente, mas a incompreensão apenas lhe ditava a raiva. A incapacidade de o entender dizia-lhe ser apenas raiva.
Do que se rasgara dentro de si, havia agora que preencher o vazio, e ele estava ali mesmo precisamente à espera de ser preenchido. A raiva era o primeiro ingrediente, já levando consigo uma pitada de incompreensão. Mal quis acreditar no seguinte, mas era aquilo mesmo que sentia – a luxúria, uma intensa luxúria que lhe trepava as pernas que parecia provir de pena de si própria – que nojo! Apertou mais as roupas contra si, mas enquanto a mão dele tocasse no rosto dela, a luxúria não desapareceria. Transferia-se assim o inédito ao ser estabelecido o primeiro toque de corpo a corpo, como nem ele mesmo se apercebera de que fazia. Para ele, estava simplesmente a chamar por ela, a segurar-lhe o rosto por isso mesmo, a querer certificar-se de que estava tudo bem. Para ela, estava acender as chamas que apagara, a exercer a prática condenável ao seu espírito que era o estabelecimento do primeiro contacto físico.
Afastou-lhe a mão. Estava tudo bem, pois claro que estava tudo bem, tinha de estar tudo bem mesmo que não estivesse, tinha de estar tudo bem mesmo que um movimento ininterrupto de raiva e incómodo crescesse em si, em desespero de apagar a luxúria. Afinal, havia mais em si do que aquilo, a carne era prisão, era prisão pelo menos ainda, ainda eram seres despidos do preconceito a viverem na liberdade da pele, a luxúria não podia vir ainda. Não se conheciam mais do que o interior – percebeu então, talvez tenha sido isso, não o poderia dizer com certeza, ms achou que sim: havia mais para conhecer. Afinal, se o corpo era veículo, tinha de aprender a conduzi-lo. Voltou as costas. Fechou os olhos. Haveria de adormecer, mas não ainda.

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