there's a chinese family in our bathroom

16.11.09

The following is a work of fiction. Any resemblance to persons living or dead is purely coincidental.
Especially you Jenny Beckman.
Bitch.

Matt Stuart Shoots Everything

22.10.09


Déjà-vu

20.10.09



18.10.09


"New York, 10 A.M.", by Pamela Hanson

my true city of love


New York,












I love you






Pic by Gakua

17.10.09


"And you were accepted, of course. You moved from Boston to Paris into a little apartment on the rue du Faubourg-Saint-Denis. I shoed you our neighborhood, my bars, my school. I introduced you to my friends, my parents. I listened to your texts, your singing, your hopes, your desires, your music. You listened to mine. My Italian, my German, a bit of Russian. I gave you a walkman. You gave me a pillow. And one day, you kissed me. Time went by, time flew and everything seemed so easy, so simple, so free, so new, so unique. We went to the movies, we went dancing, we went shopping, we laughed, you cried, we swam, we smoked, we shaved, sometimes for no reason, or for a reason. Yes, sometimes for a reason. I brought you to the academy, I studied for my exams, I listened to your singing, to your hopes, your desires, your music. You listened to mine. We were close, so close, ever so close. We went to the movies, we swam, we laughed. You screamed, sometimes for a reason and sometimes without. Time went by, time flew. I brought you to the academy, I studied for my exams. You listened to my Italian, German, Russian, French. I studied for my exams. You screamed, sometimes for a reason. Time went by for no reason. You screamed for no reason. I studied for my exams, my exams, my exams. Time went by, you screamed, you screamed, you screamed. I went to the movies. "

come, winter, come

Saudades do Inverno. O desejo que nevasse. Para que todos passemos um domingo à tarde deitados numa cama, cobertos por colchas, a beber chocolate quente, enquanto lá fora a suave manta branca nos cobre os caminhos, os flocos ternos de gelos nos beijam o caminho, e nos regozijamos no conforto de uma casa aquecido e de um coração encalorado. ♥

Entrelinhas - Da Morte

16.10.09

Espetou a pá na terra uma última vez e arrancou um pedaço de areia pesado, que foi lançar na direcção daquele buraco aberto na terra, que agora estava coberto, totalmente preenchido, por terra, por flores, por corpos humanos, por choros e tristezas, por tudo isso que lhe era apático aos seus olhos de coveiro.
Quando largou a enorme pá sobre o montículo de terra à sua frente, ouviu um enorme grito de uma mulher. Ao seu lado, a adulta senhora coberta de preto, de véu preto, de saia preta, de camisola e casaco pretos, até de cabelos pretos, largou-se no chão, esfolou os joelhos contra a terra ainda fresca de cavada, cravou os dedos no montículos, encheu as unhas de terra, levou os lábios cuspidos de saliva entristecida ao chão e beijou o solo, as lágrimas pintaram-lhe traços negros na face, pintavam-lhe olheiras pretas que vinham de acréscimo à sua tonalidade verde e azul. As rugas do rosto pareciam contorcer-se de propósito, de zombaria, de crueldade, parecia que os lábios estavam mais frouxos, que os seus pés-de-galinha estava maiores, que tinha muitas mais covinhas por todo o rosto. Aqueles olhos planos, sem maquilhagem, era como se tivessem sido colados como autocolantes numa superfície rugosa e pareciam que iam saltar a qualquer momento. Abriam e fechavam. Abriam e fechavam. Escorriam lágrimas como chove o céu em tempestades de inverno, mas chuva negra, negra dos litros de maquilhagem com que ela pintara as suas pestanas longas, e chorava ruidosamente, aos gritos, agarrada à terra, ainda; a beijar o solo, ainda; caída no chão, a sujar os joelhos nus na terra, ainda. Os seus gritos perturbava todos à sua volta. Os homens, que nunca choram, contorciam-se, escondiam as caras. Um deles agarrou-lhe na mão, colocou a outra no seu ombro, pediu-lhe delicadamente que se levantasse, que se viesse embora, mas ela não se mexeu. Todos os outros à sua volta o sentiam, que mulher despedaçada pela perda trágica do corpo, agora sem vida, contido naquele pequeníssimo caixão; que filho bonito, jovem, nem adolescente, se perdera e se enterrava agora, tristemente; se devolvia à terra, tristemente; que filho largava a sua mãe para sempre, deixando-a assim, de joelhos desnudados sobre a terra, a esfolarem-se, a chorar impulsivamente, gritando o seu nome, gritando, por favor, não me levem o meu menino. Tristemente.
Apenas o homem que segurava a pá permanecia inerte, quieto, segurando a sua pá, muito direita, encostada ao seu corpo alongado, poisada verticalmente aos seus pés, poisando as mãos calejadas, grossas, uma sobre a outra, e o queixo sobre estas, sobre a pá, e olhava para a terra; para onde olhava, na realidade, não se sabia; era facto que várias pessoas ali presentes o olhavam e se perguntavam, para onde raio olha este coveiro, que estranho, mas aquele não olhava para sítio nenhum. Julgar-se-ia até vazio, sem emoções, sem sentimentos, vazio como um balão, com nada mais do que o ar que respira à sua volta. E quando menos se espera, o coveiro tira o boné sujo de terra, com as suas mãos sujas de terra, e fecha os olhos, de olhos fixos do nada, na terra. Tomou agora mesmo a decisão de que não se torna a mexer enquanto aquela mãe desgostosa não se levantar dali. E eis que ela não se move, ali continua, ajoelhada, desgraçada, agarrada à terra como se conseguisse sentir a últimas partículas do corpo sem vida do seu filho, como se sentisse o cheiro das suas roupas pre-adolescentes, prematuras, entre os inúmeros grãos da terra, como se lhe sentisse o abraço caloroso da criança quando regressava da escola e lhe contava o dia à medida que tocava na terra e a enfiava pelas unhas adentro e pelas mangas do casaco. E por fim, toca uma última vez na terra, espeta a palma da mão nua sobre o monte, e desta vez, não é o derradeiro beijo de despedida ao seu filho, são as forças que lhe restam para içar o corpo para cima e se erguer de vez daquele leito de morte e seguir em frente, de mão dada àquele homem que a ajuda a erguer-se, que o coveiro não sabe quem é, mas certamente bom homem por anter a sua mão entrelaçada na dela em momento de tamanha desgraça como aquela.
Por fim, ele poisa a pá, horizontalmente, aos seus pés, e começa a carregar as inúmeras coroas de flores e os ramos de rosas e outros adornos florais e começa a decorar aquela campa o melhor que pode, como quem começa a decorar a sua nova casa. Bem vindo à tua nova casa, meu filho, sussurra ele na sua mente, à medida que vê as pessoas se afastarem e desaparecerem por entre as inúmeras campas, à medida que vê toda a gente passar pela desgostosa mãe e dar-lhe abraços e beijos de condolências e a vê a ela, parada, muito direita, segurando ainda a mão daquele homem ao seu lado; e quando todos desaparecem, ela permanece ali, por entre o nevoeiro matinal, uma mulher de negro estagnada por entre o cinzento das nuvens que descem à terra e assombram manhãs terríveis como aquelas, e por fim, agarra numa pequena rosa que o homem lhe tem estado a segurar por ela, aproxima-se do coveiro – que acaba de colocar o último bouquê – e larga a rosa sobre o molho de flores. Apetece ao homem pegar naquela rosa e ajustá-la devidamente, arrumá-la por entre todas as outras, como se arrumasse a nova casa daquele novo inquilino, mas deixa-se ficar a olhar para a rosa que cai da mão da mulher na direcção do emaranhado floral, deixa-se ficar a observar os seus dedos cansados largarem o caule da rosa e a retraírem para o interior do seu casaco, para se protegerem do frio. Achou interessante que, pela altura em que a mulher largara a rosa, ela já não chorava.
E quando o homem lhe dá um par de palmadinhas no ombro e um beijo leve na cara, mesmo depois de ele sussurrar, vá vamos embora, ela, ainda sem se mexer, deixa o olhar caír sobre a pá inerte no chão, deitada na horizontal, como o corpo do seu filho prematuramente morto havia momentos ali estava descoberto para todos, pálido como a morte podia ser pálida, sem uma veia de vida, por muito pouco colorida que pudesse ser, e que agora adoptaria para sempre essa posição, debaixo da terra, num minúsculo caixão coberto de seda, feito de carvalho, tapado pela terra, adornado de flores; mesmo antes de lhe voltar as costas e desaparecer, de mão dada àquele homem, em passos lentos e tristes nos seus saltos, também pretos, ela disse para o coveiro:
– Você tem o trabalho mais triste do mundo.

Entrelinhas - Da Memória

14.10.09

Abriu a porta.
À sua frente, uma mulher parada, possuía duas malas presas ao seu pequenino e encolhido corpo. Uma de uma imitação de couro castanho escuro atravessada a tira-colo, uma outrora malinha de senhora, com um fecho éclair dourado; outra um saco desportivo, mediano, cinzento, velho e gasto, preso para o lado oposto. Tinha um par de luvas sem dedos vermelhas calçados, de onde lhe fugiam os dedos roxos e esguios, muito encolhidos pelo frio; calçava um par de botas de camurça muito velhas que deixaram um rasto de lama atrás de si, e onde ela se apressava a raspar a sola de encontro ao tapete de entrada. Enfiava um barrete guerná pela cabeça abaixo, mas não o suficiente para esconder as nódoas negras e equimosas que lhe rodeavam o olho esquerdo e os pontos cosidos de fresco na sua testa e maçã do rosto. Com uma mão liberta das imensas malas que lhe atravessavam o peito, apertava o casaco castanho-escuro, e mesmo as outras tantas camisolas que vestia sob este, via-a tremer de frio quando uma brisa lhe soprava pela saia púrpura e lhe subia pelas pernas tapadas por meias cinzentas, grossas. Quando ele abriu a porta, pensou que se tratasse de uma mulher de alguma seita religiosa. Ou talvez uma sem-abrigo que conseguira entrar no prédio porque algum vizinho deixara a porta aberta, e ali fora para lhe pedir dinheiro. A avaliar pelas feridas no rosto, pelo que parecia ser uma ligadura escondida sob a luva vermelha da mão direita, pelas pequeninas rugas que se lhe formavam à volta dos olhos, pelas olheiras acizentadas escuras que se destacam em volta do amarelo amachucado do seu olho abatido, pelas covinhas gastas à volta dos lábios finos e gretados do frio, pelo cabelo emaranhado, gasto, velho, que lhe fugia sob o barrete rebeldemente, já de uma cor indefinida, teve a certeza de que era a última opção.
Preparava-se para fechar a porta na cara daquela mulher que lhe interrompera a sua leitura matinal do jornal enquanto bebia o seu café quando ela lhe meteu a mão sobre a superfície lisa da madeira da porta pintada de verde-escuro e começou a remexer no interior da pequena malinha de imitação de couro muito escura que trazia a tira-colo, presa sob a alça do saco desportivo, o que lhe dificultava um pouco a sua busca. Por fim, retirou um pequeno cartão, do tamanho de um postal de viagem comum, e estendeu-o na sua direcção. Um postal que não era na realidade um postal, mas uma fotografia, transformada num postal. Uma fotografia de uma raparguinha sentada numa carruagem de um comboio, o queixo apoiado sobre o seu punho fechado, a carinha de perfil a observar a paisagem com atenção, a paisagem que na fotografia não passava de um misto de linhas e imagens ilegíveis, a paisagem que o obturador não fora capaz de capturar, o que tornava impossível perceber onde se encontrava aquela rapariguinha, em que parte do mundo ela estava, por onde viajava. Parecia não ter mais do que vinte anos, cabelos cor de mel clareados pelo flash da câmara fotográfica, ondulavam ao sabor de uma camisola preta de mangas compridas, quando olhávamos com atenção, reparávamos que sorria, daqueles sorrisos que quando os vemos, temos a certeza de que é um verdadeiro sorriso.
Ele tacteou a fotografia antes de pegar nela copletamente e a observar, girando o cartão entre os seus dedos lentamente, lendo todos os detalhes inscritos no cartão, e lendo e relendo a mensagem nele escrita, uma caligrafia fina e delicada, cuidada e limpa, uma mensagem escrita a tinta permanente preta por alguém, alguém que ele reconheceu de imediato, alguém que ele soube imediatamente quem era, e reconheceu com toda a clareza do mundo aquele cartão, aquela fotografia, porque fora ele quem escrevera a mensagem naquele cartão, e julgara nunca mais o ver em toda a sua vida desde o momento em que o enviou.
Então, tudo o que ela disse foi:
– C.?
Ele não precisou de responder verbalmente à sua pergunta. Tudo o que fez foi sorrir e abrir mais a porta, para que então ela entrasse. No final, não passavam de meros estranhos, continuavam a ser meros estranhos, na verdade, nunca haviam passado de meros estranhos, mas no momento em que ela lhe mostrou o postal, deixaram de ser estranhos perdidos no mundo, o tipo de etsranhos que se cruzam na rua, que um deixa cair um copo de café em plena rua e molha os sapatos e o outro nem repara porque está demasiado apressado ou demsaido atrasado e caminha depressa demais para reparar em tais vicissitudes da vida como essa, tão banais ou triviais ou comuns no dia a dia. No momento em que ele lhe abriu a porta, acabava de a convidar a invadir a sua pequena bolha onde nenhum estranho até então entrara sem que lhe fosse dada a digna oportunidade de se apresentar perante os seus modos de vida, como era normal que assim fucnionasse. Acima de tudo quando se tratava de uma mulher.
Raspou mais uma vez as solas das botas sobre o tapete e sujou-o ainda mais da lama seca que trazia agarrada mesmo antes de pisar o soalho claro do chão da sua casa e caminhar ao longo do corredor observando-o com atenção, passando os dedos pelas paredes pintadas de branco de tinta lascada, a cair em pedaços para o chão, observando as três portas com que se deparava então naquele corredor: todas iguais, todas diferentes. A primeira, uma porta de madeira clara, nova, polida, gravada com linhas e traços clássicos, entreaberta; a segunda, igual, de madeira nova, talvez faia, clarinha, os mesmos traços e linhas clássicas, fechada, vazia; a terceira pintada de branco, mas igual em traços e linhas clássicas, em corte, em tamanho, em postura, nada diferia das outras. Mas fechada, e mais fechada que todas as outras. Sentia-se uma escuridão estranha esgueirar-se sob a sua fresta, e uma luz muito tremeluzente, instável, era visível quando olhada com muita atenção, esgueirando-se por baixo, como se nem aquela instável luz quisesse ali ficar no meio de tanta escuridão.
Sentou-se à mesa da cozinha, e antes de poisar as mãos sobre a toalha plastificada, estampada com pêras, maçãs, bananas e cerejas, de superfície engordurada, nódoas de restos de comida, marcas de bases de copos e velhos bagos de arroz colados à superfície, puxou dos dois sacos, a suposta malinha de senhora e o enorme saco de desporto, e atirou-os para o chão, embora depressa se arrependesse ao notar a camada de pó e gordura agarrada aos azuleijos cor de salmão, um deles lascado de tal forma que um pedaço estava já quebrado e saltava um dos seus cantos, assim formando uma pasta única, brilhante e baça ao mesmo tempo. Disfarçadamente, puxou dos sacos para junto do seu pé, onde julgou que ficasse mais protegido, onde achou que não haveria tanta gordura, ou tanto pó, ou tanta sujidade agarrada aos azuleijos cor de salmão.
Foi se sentar numa cadeirinha de plástico cor de laranja e metal enferrujado, entalada entre um frigorífico cor de creme bastante sujo, com marcas de líquidos passados encrustados na sua superfície baça, e manchas castanhas de ferrugem na sua base lateral esquerda, e a mesa engordurada. Debaixo do seu traseiro sentiu a base fofa e notou uma almofadinha redonda com rendinha verde e padrão escocês verde e branco, onde havia estampagens de pequenos patinhos a darem às asas. Deve ter demorado muito tempo a observar todos os detalhes da pequena cozinha: o microondas preto que estava poisado na bancada ao seu lado, para onde olhou tntando descortinar se as suas feridas era muito visíveis ou não, a pilha de loiça suja preenchendo o lavatório de mármore amarelo, a torneira comprida e curva a pingar para uma clareira de água suja, restos de comida a boiarem e camadas de gordura a flutuarem, a pequena cafeteira de metal antiga poisada no fogão de quatro bicos, que comiçava a borbulhar café no seu interior, que ele foi pegar com um pano de cozinha branco às riscas azuis e despejou para uma caneca amarela. Deve ter demorado muito tempo a observar, porque o café já estava pronto e poisado sobre a mesa, à sua frente, quando se apercebeu que em tempos vivera ali uma mulher, mas que havia muito tempo que ela já lá não vivia, embora conseguisse farejar a sua presença, as suas memórias ainda ali agarradas àquelas paredes, como a marca de um quadro que é retirado de uma parede após muitos anos.
Sentou-se à sua frente, dando um último trago da sua caneca branca, lisa, sem inscrições de melhor papá do mundo, ou melhor marido do mundo, ou melhor fosse o que fosse do mundo, e julgou-se que o café estaria já morno, se não mesmo frio, quando tomou aquele último trago, a avaliar pela careta que fez quando engoliu o último trago, disfarçando com um ligeiro sorriso, que ela pensou que servia apenas para reprimir o vómito súbito. Foi quando começaram a falar, e ela começou a beberricar pequeninos tragos do seu café escaldante.
– Como me encontrou?
– Não me lembro.
E foi honesta.
– Não se lembra?
– Não.
– Mas encontrou o meu cartão. Era suposto ser anónimo e nunca trocámos os nossos nomes. Mas encontrou-o. E encontrou-me a mim. Como encontrou o cartão?
– Também não me lembro. Estava no bolso do meu casaco.
– O que lhe aconteceu?
– Tive um acidente. Nada de importante. Nada de grave.
– Parece-me bastante grave, a avaliar pelos seus ferimentos e pelo facto de não se lembrar como um simples cartão que eu enviei há dois anos veio parar ao bolso do seu casaco, com a minha morada inscrita atrás, que era suposto ser anónimo.
– Não estou aqui para falar do meu acidente. Estou aqui para falar deste cartão. Fale-me sobre ele. Ajude-me a recordar.
Deslizou o cartão sobre a superfície gordurosa da toalha de mesa, sentindo os dedos roçarem aquela película de gordura e sentindo a necessidade imediata de limpar o cartão com todas as forças, como este estivesse infectado co qualquer vírus proveninente da gordura encrustada numa toalha de mesa de plástico.
– Já foi há muitos anos – disse ele, desapertando o cordão do seu enorme roupão azul clarinho, velho e gasto, com demasiado uso, com falhas de cor, manchas estranhas e uma ligeira marca de queimado numa das mangas. Levantou-se e caminhou na direcção oposta, ao que desapareceu atrás de uma das portas do corredor, a primeira, homónima da segunda. Instalou-se um silêncio perturbador. Ela nunca gostara de silêncio. O silêncio que ali se instalava agora era incómodo porque ela não sabia o que fazer. Deslizara o pequeno cartão sobre a mesa engordurada e ele nem lhe tocara com a ponta dos dedos sequer. Pegou de novo no cartão e fez aquilo por que tanto ansiava: limpou-o abundantemente contra o seu próprio casaco castanho, arrependendo-se mais tarde por passar toda aquela camada de gordura para as roupas do próprio corpo.
Minutos mais tarde, a porta abriu-se. Ele ressurgiu no corredor. Primeiro, saiu pela porta e parou defronte dela, apertando um cinto de cabedal preto com força, ajustando as calças castanhas de flanela ao seu corpo, entalando a camisa gasta branca dentro das calças, e quando se voltou para fechar a porta e trancá-la e guardar a chave no seu bolso, baixou-se e apertou os atacadores das botas pretas, cobertas de uma camada de terra castanha, lama, e outras sujidades da natureza; e ela observou-o naquele movimento, e acompanhou-lhe os traços do corpo, desceu os olhos pelas costas enquanto se curvavam, traçou-lhe as pernas, viu as mãos fartas agarrarem nos grossos atacadores e apertarem com força as botas agrestes, e subiu de novo os olhos, pelos joelhos, pelas coxas, pelas ancas, de novo pelas costas enquanto retomava a sua postura e se endireitava nas suas agora apertadas botas e caminhada de regresso para a pequena cozinha.
– Tenho de ir trabalhar. Se não se importa, continuamos esta conversa mais tarde.
– Onde trabalha?
– Um sítio triste, muito triste. Não me parece que queira saber.
– Nada é mais triste do que uma cabeça vazia – mas ao dizer isto, ela sussurrou e não teve a certeza de que ele ouviu, assim como ele não teve a certeza de que as palavras que lhe soavam na cabeça tinham, de facto, sido aquelas que ela pronunciara. E continou: – Diga-me onde trabalha.
– Mas estou a dizer-lhe que não quer saber o que faço pela vida porque é mesmo muito triste. O tipo de trabalho que ninguém quer ter.
– Muito bem, não lhe faço perguntas sobre o seu trabalho. Prometa-me então que me falará deste cartão depois.
– Prometo.
Fez uma pausa. Retirou um enorme casaco velho que estava pendurado atrás da porta e vestiu-o, mas assim que começou a ajeitar o seu colarinho e parou de costas para ela, que o olhava ainda de caneca de café – agora morno – na mão, voltou-se de novo para ela e concluiu: – Tem muitas malas consigo.
– São só duas.
– Pode cá ficar enquanto eu não volto, se quiser.
– Confia realmente numa estranha como eu dessa maneira?
Não soube o que responder. E não respondeu. Apertou bem o casaco o caminhou ao longo do corredor, passando pelas três portas, agora as três fechadas. Quis ainda ela perguntar-lhe porque trancara a porta do seu quarto. Se calhar, no fundo, não confiava assim tanto numa estranha como ela. Mbora de estranhos já pouco tivessem. Viu-o desaparecer através da quarta porta, que era a porta que saía para a rua, e viu esta fechar-se e trancar-se atrás de si. Agora, passaria o dia trancada naquela casa daquele estranho que haviam anos que não era assim tão estranho. Baixou os olhos para a sua fotografia de quando tinha apenas vinte anos, naquele comboio para Veneza, e pensou que afinal não estava tão esquecida assim. Por fim, perguntou-se que tipo de trabalho teria aquele homem para ser tão trsite assim.

A Verdadeira Essência de Nova York Segundo Ted Mosby

17.9.09


- West Orange, New Jersey? You guys live in New Jersey, not New York? New Jersey?
- Yea, but don't worry, it's pretty much the same.
- No. Oh, no. New Jersey is not «pretty much» New York. You two are not «pretty much» New Yorkers.
- And how would you know?
- Because I live here! That's right: I LIVE HERE. Yes, we're full of crap. Yes, we pretended we were from out of town so we could sleep with you two and leave in the morning. But you know what's even worse than that? Saying you're a New Yorker when you're not. Because this is the greatest city in the world and you have to earn the right to call yourself a New Yorker. So why won't you girls crawl into the open sewer pipe hole you call the Holland Tunnel and flush yourselves back to «pretty much» New York? Because I would do a lot to get laid, but I would NOT go to New Jersey!
Josh Radnor, em How I Met Your Mother
('Foi Assim Que Aconteceu')