As novas tecnologias arruinaram a sociedade, diz o crítico através do seu iPhone 7

18:38

Thomas Edison era um bruxo e a electricidade mata gatos. Criticar as novas tecnologias é tão pão-nosso-de-cada-dia que cada vez que vejo uma nova onda de "artista demonstra a verdade sobre a nossa sociedade viciada em redes sociais" suspiro e sigo em frente. A verdade é sempre a mesma: estamos sempre a olhar para telemóveis. Leiam livros! Saiam à rua! No meu tempo brincava-se ao ar livre e as pessoas conversavam umas com as outras quando iam jantar fora. Já mais do que uma vez fui a um bar e vi a infame plaquinha do "não temos wi-fi, falem uns com os outros". Mesmo que eu até nem queria usar o meu telemóvel, a geração mais velha está me sempre a relembrar que eu sou uma merda só por ter um.
Dos cartoons do New York Times aos projectos fotográficos, dizem todos a mesma coisa. Selfies são egocêntricas e já ninguém sabe viver sem tecnologia. É normal que não saibam. Se hoje em dia, quando fico subitamente sem telemóvel e tenho coisas combinadas, alguém sempre me diz "faz à moda antiga, no meu tempo combinava-se um dia e hora e estava feito", mas suponho que seja por isso mesmo que esse tempo tenha originado uma série de filmes melodramáticos sobre mulheres deixadas penduradas em mesas de restaurante à luz das velas, talvez porque não havia telemóveis para telefonar e perguntar "mais cinco minutos e vou-me embora". Se saio de casa e me esqueço do telemóvel, alguém me diz "lê um livro, antigamente era o que fazíamos", só que ao menos uns phones nos ouvidos impede aquela senhora que sem aviso se vira para mim e pergunta "o livro é bom?" a tentar meter conversa, e vamos lá com deus, ninguém gosta que metam conversa consigo num autocarro público, excepto nos filmes do Woody Allen. É sempre o mesmo que se diz, uma geração ressabiada por ver os mais novos carregados de coisas novas que não sabem mexer, a vê-los guardarem para sempre na internet uma fotografia de si próprios enquanto a única fotografia sua de quando tinha 20 anos desapareceu quando se casou. 

Não é que não haja críticas a fazer, é que se diz sempre a mesma merda e já cansa.

Passarei a exemplo prático.

Chompoo Baritone, fotógrafo da Tailândia, criou um projecto que supostamente recria a verdade por de trás das fotografias do instagram. São pequenas narrativas de como as nossas postagens nas redes sociais - nomeadamente por meio da fotografia - cria ilusões de histórias que queremos passar, mas que na realidade não estão lá. Também já ouvi essa. No início dos anos 2000 era o photoshop. Uma pessoa tinha um photoblog, postava uma foto mais decentezinha e meio mundo vinha dizer que era photoshop. A certeza era tanta que me lembro de folhear revistas com amigas na escola secundária e por cada fotografia onde a gaja fosse giraça, vinha sempre uma que dizia "isso é photoshop", mesmo que fosse um paparazzi da mulher a sair do carro de xoxa ao léu. "É photoshop" era resposta para tudo. Suponho que hoje o argumento se tenha adaptado um pouco, dizem o mesmo mas para o instagram.

Pelo menos é o que este artista está precisamente a fazer. A meu ver - e estamos estritamente no campo da opinião pessoal - fá-lo tão bem como quando a minha cadela me tenta obrigar a sair da cama raspando as patas no edredão.

Passarei a relatar foto a foto:


O que a foto diz: fiz o pino num parque.
A verdade: uma amiga segurou-me os pés.
A crítica: no meu tempo, era nos pátios de cimento, debaixo de telheiros de zinco, que se fazia pinos. E gaja que era gaja empinava-se de saia ou calça, não era cá com roupinhas de treino, e fazia-se pinos sobre pinos até que a última da pilha já so tocava com o pézinho na xaroca da primeira. Ninguém segurava pés a ninguém.


O que a foto diz: comi salmão com legumes e arroz.
A verdade: o gato ia-me comendo o salmão com leumes e arroz.
Crítica: os livros não se usam para apoiar os pratos, para isso existem umas coisas redondas muito giras e baratas no IKEA.


O que a foto diz: tenho um mac.
A verdade: vivo numa pocilga.
Crítica: pinhas nos lençóis são um terrível motivo de decoração. Arrume o quarto antes de tirar uma foto. Se calhar o quarto foi arrumado depois de tirar a foto. 


O que a foto diz: eu numa paisagem urbana bonita.
A verdade: eu numa paisagem urbana que nem é assim tão bonita?
Crítica: há aqui qualquer coisa que me está a escapar.


O que a foto diz: eu na praia a apreciar o bom tempo
A verdade: quem foi o porco que deixou a garrafa de água na areia??
Crítica: a malta perde tempo a tirar fotos artísticas e perde o rasto dos miúdos que fogem para o mar.


O que a foto diz: tenho umas plantinhas giras.
A verdade: talvez tenha plantas a mais.
Crítica: depois de romper com a sua namorada, e ao fim de dois meses de crise, Manuel percebeu que a jardinagem afinal não é para si.


O que a foto diz: fui jogar ténis.
A verdade: mais gente veio jogar ténis.
Crítica: o nosso tipo de corpo não dita se somos atléticos ou não, ó palhaço que está aí ao lado a rir da miúda.


O que a foto diz: fui andar de bicicleta.
A verdade: ...mas toda a gente foi a pé.
Crítica: não entupa o trânsito com o seu pretenciosismo de quem quer salvar o planeta a andar de bicicleta.



Cinema

Moonlight

22:35


Uma história dividida em três actos, Moonlight é delicado mas violento; é duro, mas sensível. Mostra-nos um conflito entre crueldade e beleza.

Conta-nos a história de Chiron, um rapaz crescido em Miami, rodeado de violência, filho de uma mãe viciada, que encontra o amparo junto de Juan, um dealer, e a sua companheira Teresa. Os três actos recebem o nome da personagem, nas três fases da sua vida: "Little", como a alcunha que recebe dos outros rapazes durante a infância; "Chiron" no momento da adolescência, seu nome de nascença, no momento dos conflitos de identidade; e por fim "Black", a alcunha que lhe é dada por Kevin, amigo de infância.

Moonlight é uma história universal sobre a descoberta da sexualidade e as consequências do isolamento. Mas reduzir Moonlight a isto é isso mesmo - é reduzir o filme. É também um filme que é para todas as audiências, mas que toca a uma comunidade em específico. É uma representação íntima da descoberta do eu, social e sexual, mas é um eu que insere num contexto específico. Moonlight é uma história de raça e de sexualidade que não pode ser arrancada do filme; negar esse lado é negar todo o filme e a sua mestria.

A história começa com Chiron a fugir de um grupo de rapazes que o aterroriza. Encontra refúgio numa casa abandonada, para onde os rapazes atiram pedras e outros objectos que encontram. Mais tarde, um homem abre entrada atrvés de uma das janelas. Chiron não fala durante todo o serão, se não até ao dia seguinte quando afirma por fim onde vive. Juan, o homem que o acolhe, com Teresa, tentam compreender a criança sisuda e calada. Mais à frente, Kevin, melhor amigo de Chiron, pergunta-lhe porque é que deixa as outras crianças dizerem-lhe o que lhes apetece. Chiron encolhe os ombros. Kevin solta-lhe um empurrão e os dois rebolam numa amigável cena de pancadaria. A câmara foca-se nos detalhes sem nos dar o todo, e por um instante, somos levados a crer que há qualquer tónica de sensualidade a tentar ser transmitida. É antes uma antecipação. Moonlight, contra o que se possa esperar, não é uma história redutora sobre um negro que cresce num ambiente de drogas e violência; é uma história de um negro que se apaixona pelo seu melhor amigo, e a sua luta por essa identidade no meio da violência.



"In the moonlight, black boys are blue."

Moonlight é uma história contada em círculo. No começo do filme, vemos o carro de Juan e o homem que nele se senta - o dealer de drogas que se aproxima do rapazinho introvertido que procura ajudar. Chiron, sensível, bondoso e solitário, resiste ao mundo de violência que o rodeia, em parte com a ajuda de Juan e de Teresa. Mas esse mundo corrompe-o eventualmente; no ponto de viragem do acto segundo para o terceiro, Chiron - que sofre de bullying com o passar dos anos - revolta-se por fim. Espancado pelo melhor amigo, aquele por quem se apaixona, por força do bullying, Chiron exerce a sua vingança no perpetrador do mal. Aí começa o corrompimento do jovem que, no primeiro acto, Juan segura pela cabeça sobre as águas do oceano Altântico - "o centro do mundo" - enquanto o ensina a nadar, um gesto apenas reminiscente de um baptismo; como se renascesse pelas suas mãos. No terceiro acto, Chiron, já adulto, senta-se num carro que é em tudo a réplica do carro de Juan - até ao detalhe da pequena coroa no tablier. Chiron tomou o lugar de Juan - é agora também ele dealer, também ele comete alguns actos de bullying. Mas não são mais do que actos de sobrevivência. Chiron permanece, apesar de tudo, um jovem bondoso e sensível, e o filme não evita mencioná-lo, e deixa-o claro aos nossos olhos. Não só a representação impressionante dos três actores - que não se conheceram até depois das gravações, para que cada um pudesse contribuir com a sua própria interpretação da personagem - como nas próprias cenas. Se no final do primeiro acto vimos a mãe de Chiron gritar algo imperceptível e esconder-se na enorme luz vermelha do seu quarto, no segundo, vemo-la em inverso, saindo dessa luz vermelha, e ouvimos o que grita - "está calado". E por fim, no terceiro acto, assistimos à sua redenção. Se Chiron observa o oceano atlântico debaixo da luz do luar que torna "todos os rapazes negros azuis" - quando entra em casa de Kevin, depois do reencontro, é uma t-shirt azul que o amigo veste. Porque todos os rapazinhos negros são azuis debaixo da luz do luar, e o azul, neste filme, pinta cada cena com a sensibilidade que os actores mostram na representação de Chiron. 

Se, no final do filme, Chiron se tornou na pessoa que sempre se esforçou por evitar - e não se não por circunstâncias que o rodeiam, por esse mundo que acabou por pesar sobre si - ele deixa ainda espaço para quem verdadeiramente é - aquele rapazinho da última cena do filme que, debaixo da luz do luar, observa o oceano atlântico, essa massa de água que é o centro do mundo. Ao contrário, Kevin permanece o mesmo, um antagonista àquele que é o personagem principal. E tal como no final do segundo acto Chiron perdeu as estribeira e deixou a raiva tomar conta de si, agora, é o sentimento de um amor que nutre com o passar dos anos que deixa discorrer sobre o amigo: "És o único homem que me tocou. Nunca mais fui tocado desde então". É uma tragédia que termina com uma espécie de redenção, e que talvez nos dite a esperança de esse rapazinho que é azul debaixo do luar, e a sua inocência e bondade, retornem por fim e dêem lugar ao homem que adoptou a pele de um outro homem.

Moonlight tem uma sensibilidade que se transmite numa cinematografia onde as cores contam as histórias de todos os rapazinhos negros que são azuis debaixo do luar. É um filme que conta uma história universal através de uma outra história que já só diz respeito a uma só comunidade. É uma história de crescimento e descoberta face às limitações do mundo corrompido que impõe uma masculinidade agressiva e violenta sobre um rapaz ternurento, que corrompe esse azul do luar com o ciclo vicioso que o cerca. Mas é uma história que, embora com violência, é ternurenta e delicada.

Música

12:28


Foi com entusiasmo que hoje acordei para a notícia de que Chance the Rapper venceu o Grammy de Best New Artist e, mais impressionante ainda, Best Rap Album, derrotando dois dos gigantes do género, Drake e Kanye West. E isto é importante - e em vários aspectos revolucionário - por uma simples razão: Chance the Rapper é, de momento, o único grande nome do rap norte-americano completamente independente no que toca a grandes labels. Chance não é representado por nenhuma grande editora; há dez anos, aliás, que recusa.

Há quem discuta se ele é assim tão independente, visto o seu meio de divulgação dos seus álbuns ser o iTunes e a Apple Music, e que existe a possibilidade inclusive de haver acordos entre a Apple e o artista independente. Além disso, que é preciso ter-se em consideração que Chance, apesar de independente, receb a atenção de uma empresa avaliada em 700 biliões de dólares. O cantor tem ainda colaborado com vários artistas como Frank Ocean, R. Kelly, Childish Gambino, e muitos mais, facto que leva ainda alguns a debater se lhe valeu ainda a projecção. Debatível, suponho.

Inegável é que o rapper de Chicago mudou o paradigma de como a indústria musical norte-americana controla os seus artistas. Facto é que Chance não tem ainda uma grande label em cima em produção dos seus álbuns, e usa o streaming como divulgação de um trabalho de concilia o rap com o r&b e o gospel em colaborações numerosas. Chance the Rapper está de parabéns pelo prémio em tudo meretório.

Séries

02:00





2001: Odisseia no Espaço e Twilight Zone tiveram um filho: a série da Fox, Legion, uma série retro-futurista sci-fi que me fez esquecer por um momento que é baseada na banda desenhada da Marvel, e pela primeira vez, isso foi bom sinal. 

O primeira episódio apresenta a história de um gajo que ou tem problemas mentais sérios, ou um poder demasiado forte - e eu como já o conheço um bocadinho dos comics posso dizer que é um pouco dos dois. Mas deixou também claro que se vai distanciar desses mesmos comics - óptimo. David Haller é uma personagem que já data dos anos 80, se não anterior (afirmo a dúvida), o que na vida de um personagem da Marvel se traduz para um personagem que já serviu para um pouco de tudo - inclusive criar timelines que o Brian Synger fez questão de arruinar (Apocalypse). Ter a liberdade de reinventar um personagem, ao mesmo tempo que lhe faz jus ao espírito, para mim, é sempre boa ideia. E Legion optou pela estética retro-futurista dos anos 60-70 para contar a história de um dos mutantes mais poderosos e com uma mente demasiado complexa para se traduzir em só mais um franchise.

A série ofereceu-nos no primeiro episódio um psycho-thriller bizarro, sensorial, com uma fotografia potente, uma realização apurada e uma edição de tal maneira refinada que a história, mesmo que se torne básica quando escrita, se torna numa viagem através das imagens, capaz de transmitir uma alucinação, sã ou insana, de uma mente perturbada quer por um poder, quer por uma doença mental (vamos a ver se tenho razão e é um bocadinho dos dois).

Já a aguardava há muito tempo. Finalmene vi. Nada desiludida.

Aguardo o próximo com ansiedade.

Cinema

21:53


Nicholas Sparks, depois de todos os seus livros adaptados ao cinema, depois de gastos todos os plot-twists amorosos, depois de arruinar todos os casais sulistas americanos, matar protagonistas e isolar mulheres com Alzeimar, depois de reutilizar todos os 5 actores brancos de Hollywood (vocês sabem quem são eles) para a mesma narrativa com vinte e três variações diferentes da definição de "amor trágico", renovou-se. Fez um musical. Chama-se La La Land.

O filme passa-se numa realidade que eu reconheço imediatamente que é actual, porque faz lembrar aqueles interiores de barbearias vintage da baixa de Lisboa: é no presente, mas os personagens parecem ter um fetiche inabalável pela década de '50.

Mia trabalha nos estúdios de Hollywood a servir cafés às maiores estrelas das majors, cabisbaixa e soturna por o seu sonho ser ao mesmo tempo inalcançável e tão próximo, abalada pelas suas tentativas falhadas em cumprir o seu sonho. Quer ser actriz, claro. Apesar de ter já tentado uma série de castings, nunca conseguiu, aparentemente, nada. Nem como figurante num anúncio para a diabetes, aparentemente. Sebastian, por seu turno, é um branco que usa sapatos de sapateado dos anos '50 o filme todo, mesmo quando não dá claramente jeito usá-los, e que tem também o seu próprio sonho: salvar o jazz. Ironicamente, o John Legend não acha isto ofensivo, mas dá-lhe a dica de que, se calhar, é melhor tirar a cabecinha do passado e seguir em frente. Sebastian acha que o jazz morreu e decide viver em Los Angeles para o salvar porque, aparentemente, ninguém lhe disse que foi no Lousiana que o jazz nasceu.

Mia e Sebastian conhecem-se então no trânsito, uma troca de olhares e um pirete que tenta ser divertido mas que ditou perfeitamente o nível de humor e previsibilidade para o resto do filme. Os dois voltam a cruzar-se quando Sebastian, pianista num restaurante, é forçado a tocar músicas de Natal pelo mesmo gajo que traumatizou bateristas no Whiplash, mas num laivo de coragem, e porque o seu amor ao jazz é demasiado grande para sucumbir às festividades natalícias, decide borrifar-se para o que o patrão diz e improvisar uma música de sua criação - jazz, caso se estejam a questionar - resultando no seu despedimento. Mia entra no restaurante, atraída pela música, claro, porque o homem mais branco de Los Angeles é o melhor pianista jazz que vão conhecer, e assiste a tudo. Quando por fim se aproxima de Sebastian para o elogiar, o cavalheiro dá-lhe um encontrão com o ombro e manda-se bugiar. Romântico.

Reencontram-se então numa festa onde uma banda está a tocar covers dos anos '80, onde um minuto e meio do Take on Me nos faz esquecer este inferno suburbano-americano apenas por um momento, e Mia, piçada com a situação, pede então à banda que toque o I Ran, supostamente porque dá forte no piano. O pianista é o nosso herói do jazz, caso não tenham percebido e, irritado, Sebastian diz-lhe que é um insulto pedir a um músico a sério que se toque o I Ran. Imaginem como é que os A Flock of Seaguls se sentiram. Foi aqui que fui fazer crepes e me passou uma parte musical que, a revelar pelo resto do filme, foi irrelevante.

Daqui em diante, a melhor forma de entender o filme é seguirmo-nos pela música do Rui Veloso, o Anel de Rubi.

No mix do romance da actriz falhada e do músico branco de jazz, o nosso Vanilla Ice do improviso sugere que ela escreva um guião. Não percebi bem para quê, porque se torna irrelevante o resto do filme visto que ela até no guionismo se torna falhada. Sebastião, vou chamar-lhe assim porque soa à beto, aceita então um emprego como pianista numa banda de John Legend, que para mim é a parte mais estranha de todo este filme. É então que John Legend lhe diz a deixa mais inteligente de todo o filme, e a única coisa que vale a pena, logo a seguir ao próprio John Legend: que ele está fixado no jazz do passado e que convém seguir em frente.

Segue então uma vidinha de tournés do nosso Sebastião enquanto Mia permanece em casa a escrever guiões (acho eu? Fui fazer mais crepes) e a tentar audições falhadas e a actuar em teatros de beco sem nenhum público, e de dona de casa solitária, nos seus vestidinhos de roda e sapatinhos de fivela, que é para não nos esquecermos que este filme tem uma vibe de anos '50, caso o look dos nossos protagonistas não o tenha revelado o suficiente, fica o sexismo subreptício. Dá-se então uma cena em que Mia vai ao concerto da banda de Sebastião. John Legend absolutamente arromba com todo o público, na sua voz excepcional, até que dá a dica de "dá-lhe, teclista" e cai um foco de luz sobre Sebastião. Mia fica meio horrorizada, abalroada pela multidão que se está claramente a cagar para o teclista branco e focadíssimo no John Legend, e afasta-se, a desilusão no seu rosto apenas ofuscada pelas luzes coloridas que, agora, ditam a Mia que ela é ainda mais falhada do que foi até agora - não sou eu que o digo, é o filme.

Os dois separam-se depois de Sebastião faltar à estreia da peça medíocre de Mia onde três pessoas vão assistir e porque Mia não consegue suportar que o Sebastiãozinho ande em tourné enquanto ela não consegue nada da vida, mas no dia a seguir é chamada para um casting que resulta finalmente do seu sucesso. Fast forward cinco anos e Mia é já tão conhecida que toda a gente no exacto café onde ela trabalhava se baba e borra pela sua presença, o que é justificado quando se vê que ela casou com o produtor - tal e qual como no cinema de Hollywood dos anos '50, percebem?

Os dois reencontram-se, agora Sebastião tem um bar de jazz popularusco e desta vez quem é atraído pela música é o marido de Mia, e os dois trocam olhares e viram cabeças da maneira que todos conhecemos porque já vimos pelo menos um filme de Nicholas Sparks. Seguem as suas vidas, Mia sendo a diva que sempre sonhou, Sebastião salvando o jazz, um instrumento de cada vez. E Hollywood branco delira, afirmando que nunca houve nada como este filme. A grande lição é que Mia aprendeu finalmente a gostar de jazz e que Sebastião viu o sketch de Gato Fedorento e aceitou que também é bom "à média e à belga". E pela segunda vez, Damien Chazelle conseguiu não fazer jus à verdadeira origem do jazz, entregando-o às saladas de maionése hollywoodescas como tanto a Academia adora.

O filme tem uma composição, no mínimo, esquisita. Era claro que o realizador tentou misturar a estética dos anos '50 com a actualidade, mas fê-lo de uma forma que transforma a personagem de Ryan Gosling num daqueles pretensiosos que se senta a um canto do Starbucks com uma máquina de escrever, que, de certeza absoluta, frequenta a Fígaro e que acredita que só ele sabe o que é o verdadeiro jazz, porque já ninguém sabe o que é o verdadeiro jazz, nem mesmo o John Legend ou os outros negros profissionais de jazz; e Emma Stone numa sonsinha de vestidos coloridos que se deixa levar pelo estilo de vida, que assume ser deslumbrante, das estrelas de cinema, com as quais se cruza e claramente inveja, sem razões válidas mais que "é o meu sonho". A cinematografia - que nem chega ao trabalho de cor que Mad Max recebeu - não salva o vazio desta história.

E depois há o jazz, aquele que o branquelas do Sebastião quer salvar porque, afirma, está a morrer. O jazz, que tem uma história revolucionária na história afro-americana, um estilo de música que nasceu das caves do Louisiana dos recém-libertados da escravidão e que migrou para Nova Iorque sob a forma dos clubes nocturnos depois da lei de Jim Crow devastar os estados sulistas. Esse jazz. Ryan Gosling quer salvar esse jazz, porque ele está "a morrer".

Vou fazer uma pausa.

No século XIX, um fotógrafo chamado Edward Curtis acreditava que a população nativa americana ia morrer. Tanto assim o cria que criou o projecto "vanishing race", em que se comprometeu a fotografar o máximo possível os nativos americanos nas suas reservas. As suas fotografias representam indígenas americanos em vestimentas "típicas" e em posições frontais, cruas e o mais rígidas possível. Mas Curtis era também conhecido por escolher, em várias ocasiões, que vestimentas deveriam estes indígenas usar e em alteral qualquer indício de modernidade: numa das suas famosas fotografias, eliminou um relógio. A sua tentativa de "salvar" a raça de que estava a desaparecer resultou num aparato caricatural de várias tribos onde, aparentemente, a modernidade não chega porque, para sempre, para Curtis, serão os "nativos", os "indígenas" - e para os nativos-americanos, algo entre uma ofensa e uma piada de mau gosto.

A cena em que Sebastião leva Mia a um bar de jazz para lhe ensinar o que era o "o verdadeiro jazz" (e diz o Rui Veloso: a saliva que eu gastei para te mudar), em que ele toca aí piano e os músicos - afro-americanos do jazz liderados por John Legend - ficam tão impressionados que exigem que Sebastião se junte a eles, fez-me lembrar Edward Curtis. Não porque o homem branco quer tocar jazz, mas porque este homem branco quer salvar um estilo musical com tanta força que o quer fazer ultrapassando, inegenuamente, aqueles pertencentes à comunidade que o representa. Durante todo o filme, Sebastião é tratado como um salvador, ao ponto de a personagem achar que entrar para a respeitável banda de John Legend será "vender-se" - porque ser comercial não faz parte do jazz. Porque este personagem ama tanto um estilo de música que tevem origens na pobreza afro-americana que se recusa a pagar as contas para poder ouvir os seus vinis - estão a ver a ironia?

Voltando a onde estava.

Depois da cena de abertura de uma belíssima dança por um grupo de dançarinos e actores diversificado que estabelecem um certo nível através de um só plano-sequência, não dá para mais nada que não a desilusão. O filme não volta a bater naquele nível inicialmente estabelecido, antes opta por contar uma história visualmente confusa, ainda que com boa cineatografia, sobre um casal onde o conflito central é o de qual deles tem a paixão mais forte. Desenrola-se num enredo previsível com bastantes dos conhecidos clichés e não nos dá muito mais do que números musicais que nem sequer se superam a si próprios. Não são nada demais. As músicas não são nada demais. Não são como I Like to be in America de West Side Story que, transportado para mais de cinquenta anos depois, ainda são actuais, nem sequer tem um Russel Crowe como os Miseráveis para nos deixar meio confusos acerca do que se passa, nem sequer uma Éponine a cantar sobre ir buscar o balde às escadas.

Não é nada de especial. Então como é que conseguiu 14 nomeações - superando o record de nomeações de James Cameron - para Óscar é o que me transcende. Se La La Land fosse só mais um filme de que se fala, era como o outro. Mas este filme incrivelmente mediano conseguiu convencer toda uma classe da Academia de que este, sim, é um dos melhores filmes do ano, enquanto confronta produções poderosas.

Será que é porque o jazz chamou a atenção da elite branca suburbana norte-americana? Hm.

Portanto, o que é o La La Land que não uma reinvenção musical de Crazy Stupid Love?

Fica ainda este sketch que reflecte a minha alma:

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